Queremos Guerra!

Cartaz QUEREMOS GUERRA! (1)

Gosto de pensar que muitos dos larps que escrevo são como canções: porções concentradas de comunicação emotiva/intelectual/provocativa que você pode pegar, ler e chamar os amigos pra curtir juntos. Publicar um roteiro, então, é parecido com lançar um single. Rola a ideia, você trabalha nela, chega num ponto ok e arremessa a garrafa com a mensagem no mar. Algumas músicas são atemporais, outras falam diretamente com o tempo em que são feitas. Trabalhos recentes como Excelência Overdrive e Evangelho 2020 ficam nessa segunda categoria, que agora recebe também esse Queremos Guerra!

Depois do trabalhão que o Eva 2020 deu queria fazer algo mais ligeiro e direto. Nessas escrevi o Companheiros do inferno e agora o Queremos Guerra! Não tem muito o que dizer: a mensagem é clara como uma pedra na cara. Vale registrar que tentei criar um larp que pudesse rolar tanto online quanto presencialmente porque – pra finalizar na analogia com a música – larp online é, tipo, live.

QUEREMOS GUERRA!

Evangelho 2020

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Evangelho 2020 é o resultado de algumas vontades inéditas. A primeira, criar um larp entranhado no presente, que tratasse do mundo como acontece agora. Algo como um poema ou crônica de jornal ou canção lançada no calor das coisas. Talvez não faça nenhum sentido daqui 5 ou 10 anos, mas no hoje ele se pretende incisivo. Em 2021, ao menos, ele permanecesse holisticamente atual. Com exceção de FEDERAIS: a chamada da pátria insultada, todos os meus larps anteriores eram atemporais, e mesmo FEDERAIS foi pensado assim (mas o Brasil truca a gente o tempo todo).

A segunda vontade era incluir na própria estrutura do larp mecanismos explícitos de conhecimento e ação política. Corriqueiramente, os larps propiciam o compartilhamento e a criação de saberes de maneira sutil e difusa, apostando todas as suas fichas no que as pessoas trazem e lançam umas para as outras e reduzindo ao mínimo a palavra do autor (ou escamoteando-a, para não sermos tão inocentes). Sempre achei isso o tchananan do larp e persegui muitas vezes esse apagamento – ou neblinamento, melhor dizendo – do autor e continuo sentindo nisso uma das maiores potências e revoluções do larp.

Mas com Evangelho 2020 achei que as cartas precisavam ser baixadas na mesa. O atual governo possui um projeto explícito de destruição da coisa pública e um mapa bem marcado rumo ao autoritarismo e queria um larp de combate a isso. Como está no roteiro: conhecer o que pensam os apoiadores para saber como enfrentar. Não basta chamar seu tio de fascista no Natal ou sair do grupo da família. É preciso compreender porque seu primo sempre muito legal começou a expressar umas ideias políticas babacas para saber como descontruir isso.

Finalmente, uma outra vontade, essa nada inédita, era de continuar a pira de nublar as fronteiras entre larp e “mundo real”, o tipo de coisa que radicalizei com os parangolarps. Não acho que elas existem, na verdade. Para preservar a ordem das coisas, com suas hierarquias e opressões, é feita a manutenção de um discurso essencialista que nos vende a ideia de um “eu único”, de um “mundo real” e outras tranqueiras dessas. Você sendo o personagem em um larp não me parece tão distante de você sendo o funcionário da empresa tal, o filho querido na festinha de final de ano ou o amigo falando besteira na mesa do boteco. Em todas essas situações, você não é exatamente o mesmo: variações mais ou menos sutis compõem essa multiplicidade que é mentirosamente chamada de Eu, no singular e letra maiúscula.

Do mesmo jeito, estar em um larp não é “menos real” que dançar na baladinha, projetar campanhas publicitárias sentado em frente ao computador ou participar dos protocolos de um jantar em família, por exemplo. Mas parece que é, certo? Por isso, em Evangelho 2020 quis trazer o jogo para isso que chamamos a “realidade”, com a transmissão ao vivo e a participação de outras pessoas, além de outros procedimentos que vocês vão encontrar lendo esse roteiro.

Algumas pessoas vão gostar, outras vão odiar. Funciona assim.

Evangelho 2020 – versão para smartphones

Sexta-feira 13 é noite de Excelência Overdrive!

EXCELENCIA OVERDRIVE

Vai acontecer sexta-feira, 13 de novembro, via Google Meet e WhatsApp, às 21 horas. Para participar, é só mandar uma mensagem no facebook, instagram ou para luizfdprado@gmail.com

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Depois de ler um breve texto do Bruno Latour (tiraram do ar, bixo!), veio a ideia de experimentar com o formato online, motivado pela quarentena e o zero absoluto das realizações de larp por aqui.

O Leandro Godoy, naquela gentileza que já é praxe, organizou a premiere do Overdrive, mas eu perdi a hora =P (era sábado de manhã!) Agora pretendo jogar!

De certa maneira, segue naquela busca por nublar fronteiras entre “jogo” e “real”, aproximá-los, fazer a distinção perder sentido. Seja na estrutura formal, seja nos oferecimentos temáticos.

(Na primeira versão da arte, escrevi “líderes mundias pensando o mundo…”. Quando botei a foto, corrigi para “gente no poder” mesmo.)

HORA-EXTRA NO PEQUENO DEPÓSITO DE REFUGOS DOS HORRORES

Os operários do Criador, responsáveis pela “mão na massa” na hora de criar os seres vivos, acertam muitas vezes. Em algumas ocasiões, entretanto, a execução do projeto dá terrivelmente errado e ele não pode entrar na existência.

Quando está por perto, o Criador simplesmente desintegra o resultado tenebroso. Quando não está, os operários costumam guardar esses projetos num quartinho escuro, secreto e abandonado.

Nesse depósito, estão os horrores a quem foi rejeitado o direito de pertencer ao mundo. Toda sorte de bizarrice, monstruosidade e perigo está amontoado lá, pegando poeira e sem destino.

É noite de sexta-feira e todo mundo foi embora da fábrica. Menos um operário, Tarantão. É porque ele decidiu impressionar sua paixão, Talamita, mostrando os refugos do pequeno depósito.

OS PERSONAGENS

Um dos jogadores é Tarantão. Ele quer impressionar sua paixão, levando-a para ver as criaturas grotescas no depósito. Quer deixá-la assustada e mostrar que ele mesmo é criativo, esperto e não tem medo de nada.

O outro jogador é Talamita. Ele tem curiosidade para conhecer os refugos da criação. Tem várias perguntas, mas também tem receio do que pode encontrar lá atrás.

O JOGO

O jogador que é Tarantão leva o jogador que é Talamita para um espaço como o quarto da bagunça, a lavanderia, o almoxarifado ou simplesmente seu próprio quarto. Lá, começa a descrever os refugos a partir de sua imaginação, utilizando os objetos e mobiliários do lugar.

Quanto mais grotescas, improváveis e assustadoras as criaturas, melhor. Conte histórias do que fizeram, qual era o projeto original, quais seus “nomes de trabalho”.

Talamita observa o ambiente, faz perguntas, investiga, pede mais detalhes. Pode sugerir características e traços a partir do que despertar sua curiosidade. Quem sabe das criaturas é Tarantão, mas Talamita pode ajudar o outro jogador a criar os refugos também.

O jogo pode terminar de duas formas. Talamita acha tudo muito grotesco e pede para ir embora: “não era isso que eu tinha em mente para uma noite de sexta-feira!” Ou pode se impressionar decididamente com Tarantão, se declarar e dar-lhe um abraço: “você é realmente a pessoa mais corajosa que eu conheço.”

Fim do larp.

Para fazer o download da versão em .pdf clique aqui

(Se você gostou, dê uma olhada também em Os Anatomistas de Babel, de Ygor H. Speranza, uma das referências para esse larp. O jogo pode ser encontrado aqui.)

Excelência Overdrive

Excelência Overdrive [logo]

Uma pandemia tomou o planeta.
Quarentenas foram decretadas por todo o globo.
Comércio e indústria fechados, pessoas trancadas em casa.
Centenas de milhares morreram, economias foram estranguladas e a política estremeceu.

Está passando.

Em diversos países, o governo agora é outro.
Renúncia, impeachment, revolução ou morte levaram os velhos políticos.
Você é uma das novas lideranças globais, com a missão de traçar o futuro pós-pandemia.

Esse jogo é o encontro dessas lideranças na tentativa de uma agenda comum para a humanidade.

Online, é claro. Por enquanto.

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Um larp motivado pelo isolamento social e escritos de Bruno Latour. Disponível gratuitamente para download em dois formatos de edição.

Excelência Overdrive [fundo escuro]

Excelência Overdrive [fundo branco/texto corrido]

Arte contra nazi

Arte contra nazi é um projeto de combate ao nazismo, ao fascismo e à intolerância através da cultura.

Larp contra nazi é a parte que cabe ao larp nesse latifúndio.

BRIGADAS ANTI-NAZISTAS é um larp contra nazi.

BRIGADAS ANTI-NAZISTAS

1. Um nazista apareceu no bairro. Pode ser alguém com um discurso de ódio e preconceito, alguém com uma suástica no braço ou alguém imitando o ministro da propaganda nazista.

2. Vocês são integrantes da Brigada Anti-nazista do bairro e estão reunidos para elaborar um panfleto de alerta e defesa que será distribuído para os moradores.

3. O momento do jogo é a reunião e a criação desse panfleto. Vocês precisarão de folhas de papel e canetas.

4. Tudo é criado no improviso: quem são vocês, onde moram, quem é o nazista. Se alguém disser que ouviu o sujeito ouvindo Wagner na rua de trás, aceite isso como verdade e leve para o jogo. Se lhe chamarem de Renata, então seu nome é Renata.

5. Dois pontos merecem atenção nesse processo de criação improvisada e colaborativa:
(1) quem é o nazista e como ele se manifestou e (2) quais são as táticas e a experiência da Brigada.

6. Quando vocês finalizarem o panfleto, tirem cópias e distribuam pelo bairro mais próximo.

7. Fim do larp.

ARTE CONTRA NAZI

Os Parangolarps

Larp é live action role play. Ação viva + jogo com papéis.

Ação viva. Um gesto consciente e transformador. Um movimento intencional em direção ao mundo.

Jogo com papéis. Uma dança com nossas múltiplas identidades cotidianas. Uma torção, experimentação, subversão, maravilhamento. Sermos nós mesmos – mas diferentes.

E os parangolarps. A manipulação determinada dos papéis no microcosmo da ação, para recompartilhar as possibilidades do mundo.

As coisas como são agora não passam de uma das alternativas. O mundo – local e globalmente, ao toque ou de longe – pode ser diferente.

Parangolarps. Uma baldeação entre o larp, as obras de arte de vestir de Hélio Oiticica e as Zonas Autônomas Temporárias de Hakim Bey. Pelo rompimento das fronteiras entre jogo, arte, revolução e realidade.

O jogo, a arte e a revolução não como antíteses, mas como constituintes da realidade.

Porque a realidade como está aí é apenas uma das possibilidades da existência.

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Desde agosto de 2019, os parangolarps são espalhados em ônibus, trens do metrô, bibliotecas, bares e outros espaços públicos de São Paulo de maneira anônima.

São microrroteiros de ações que alteram de maneira sutil, mas contundente, nossos papéis cotidianos e nossas relações com os outros.

FEDERAIS: a chamada da pátria insultada

pf

FEDERAIS: a chamada da pátria insultada surgiu em 2017, a partir de uma conversa na cozinha do Luiz Falcão, entre nós dois e o Tadeu Barba Rodrigues. “Seria legal um larp de agentes batizando operações da PF” e tal.

Voltei para casa e passei uns dias cultivando a ideia, até uma primeira versão “nada de mais”, nas palavras do Falcão (ou qualquer coisa do gênero). Decidi deixar de ser preguiçoso e surgiu o larp como está aqui. Acabou misturando o humor da ideia inicial com um comentário sobre o momento político da época. Acho que ainda permanece válido, apesar das operações da PF terem saído do holofote e o facebook não ser tão envolvente quanto era.

FEDERAIS aconteceu uma única vez, ainda em 2017, numa edição do FERVO, que rolou na Funbox (agradecimentos grandíssimos ao grande Jaime Daniel Rodríguez Cancela, que nos recebeu tantas vez por lá!) e depois nunca mais. Gostamos do jogo, mas vieram outras coisas, prioridades e blá blá.

Por um obscurantismo do qual não me lembro, não disponibilizei o roteiro do larp. Pretendia fazer uma edição bonitona? Uma revisão de linguagem, mais acessível? A ideia era ficar escondido mesmo? Já passou.

Depois de quase 2 anos, finalmente deixo aqui o jogo, a pedido do Barba, que precisa citá-lo no seu doutorado. Causa chique.

O arquivo é o .pdf feito em 2017, usado para a realização no FERVO, sem trabalho gráfico ou ilustrações.

FEDERAIS – a chamada da pátria insultada

Aliens em Sorocaba!

Um dos movimentos mais legais da vida de um larp – falando do ponto de vista de um criador –  acontece quando ele voa das suas mãos e se materializa pelo trabalho de outras pessoas e em outros lugares.  Quem decide organizar o larp toma o roteiro pelas rédeas, como uma partitura, e faz sua própria versão deliciada de improvisos particulares.

Dessa vez, foi o mestre (logo logo doutor) Tadeu “Barba” Rodrigues que levou os alienígenas do Andarilho para um passeio por Sorocaba. O rolê aconteceu no campus da Universidade de Sorocaba (Uniso) por ocasião de um convite feito pela professora Míriam Cristina Carlos Silva para anunciar o evangelho do larp (nas palavras do próprio Barba) numa aula de Percepção e Criatividade destinada a estudantes de Design.

No roteiro original de Andarilho, o final do larp acontece com a gravação de um áudio relatando as experiências dos alienígenas na Terra. Em Sorocaba, o hack sensacional se deu com a transformação do áudio em ilustrações!

 

Aquele abraço p/ o Barba pelo corre forte e agradecimentos à professora Míriam e a Uniso pelos portais abertos!