Uma tarde no museu – Ciclo de iniciação ao larp no Sesc Itaquera – 22/5 [arte]

Arte para divulgação de Uma tarde no museu, quarto larp do Ciclo de iniciação ao larp do Sesc Itaquera – 22/5/2016.

Cartaz selecionado

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Uma tarde no museu, relato de um LARP, por Chico Lobo Leal

Hora de resenhas e impressões pessoais.

Chico Lobo Leal foi um dos participantes de Uma tarde no museu e decidiu colocar em letras  sua experiência no larp. O texto foi publicado originalmente no site Aventurando-se e agora fica disponível aqui também:

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Continuando o hábito de relatar minhas experiências de RPG aqui no blog, vou compartilhar o que vivi nesse novo Live Action RPG que participei no mês de julho, semelhante ao que fiz com o LARP da Confraria das Ideias – Quimera.

O autor desse jogo não é ninguém menos que o Luiz Prado, camarada entusiasta do gênero e desenvolvedor dos mais diferentes LARPs que uma mente extravagante e criativa pode conceber (inclusive o acima citado Quimera).

Com um passado recheado de “lives” de vampiro (com direito a “roupinha de live” e tudo o mais), atualmente tenho participado de LARPs com uma pegada diferente:

Um LARP numa tarde. Num museu.

Diferentemente dos LARPs que exigem intensa preparação dos criadores (com a criação, cenário e organização), esse live teve a proposta de ser uma experiência de uma tarde. E, a jóia dele era o local do jogo – o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

Aqui chamo a atenção de você amigo leitor. O LARP era num local público, em pleno horário de funcionamento. Isso significa que não haveria barreira entre nós jogadores e os funcionários e visitantes do espaço. Seria “tudo junto, numa coisa só”. Apesar de já ter lido relatos de jogos que aconteciam em situação semelhante, foi a primeira vez que participei de um. E caramba, foi animal não ter uma diferença entre “on” e “off” (ou seja, dentro e fora do jogo).

Já dentro do museu tivemos uma “introdução imersiva” conduzida pelo Prado, quando demos um giro pelo museu e fomos levados a refletir sobre algumas questões:

“Imagine-se tendo tomado um outro caminho na vida. Quem seria você se tivesse feito outra faculdade, ou se tivesse mudado de cidade quando criança?”

A voz aveludada do Prado serpenteava nossos ouvidos e desencadeava algumas derivas interessantes…

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foto por Chico Lobo Leal

Já “climatizados”, escolhemos os papéis, formando três duplas: duas obras de arte, as “estrelas” do LARP, dois visitantes e dois monitores, que seriam encarregados de apresentar o conteúdo do museu para aqueles.

Com total liberdade, cada um escolheu seu papel, e, rapidamente, o Chico que vos escreve desceu o elevador, e quem subiu novamente foi o Paulo, estudante de Ensino Médio com um trabalho para fazer e sem nenhum conhecimento artístico que mereça ser chamado como tal. Porém, para sorte do Paulo, havia um guia muito experiente que trabalhava no museu há mais tempos do que ele mesmo lembrava.

O estudante então começou uma jornada no museu, sendo apresentado aos mais diversos tipos de obras (arte contemporânea é duca nesse sentido!). O guia experiente elaborava suas explicações numa linguagem do século XIX, e o Paulo, como estudante aplicado que era, exercia sua atividade questionadora – “Mas isso é arte? Parece uma bola de chiclete”.

Hehehehe

Dentro desse cenário duas obras chamaram a atenção por sua originalidade:

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fotos por Chico Lobo Leal

O Paulo e seu guia passaram boa parte da visita apreciando estas obras, e não foram poucas as reflexões sobresseu conteúdo e mensagem.

– Qual seria o contexto em que o artista vivia? De onde ele era? Qual é a mensagem da obra? Qual a relação da obra com o resto do museu? Qual…

Sim, esse foi nosso LARP – um verdadeiro mergulho na reflexão acerca da nossa interação com a arte. Confesso que nunca havia pensado tanto em um museu e, veja bem, não que eu seja um parâmetro, mas de fato o jogo enriqueceu minha experiência no meio. Não só durante o jogo, mas talvez, principalmente, na conversa pós-larp, quando sentamos em roda e começamos a bater um papo sobre o que experimentamos.

Essa troca de experiências pós-jogo (tradicional nos LARPS da Confraria) é brilhante! Lá comecei a “digerir” algumas coisas latentes na cabeça, e foi incrível perceber a sinergia entre o jogo e o espaço do museu. Enquanto os LARPs “tradicionais” exigem aquela preparação hercúlea pra montar o cenário (e só quem já organizou um live desse tipo sabe o trabalho que dá), o museu já estava lá. Pronto, aguardando por nós. Sério, ele aguardava por nós!!! Esse LARP foi só um reencontro de uma forma de arte e seu espaço.

Sem falar que na conversa eu descobri o mistério que envolvia meu guia ancião. Ele era na realidade um fantasma! hahaha

Pra finalizar, queria agradecer os participantes do LARP, camaradas de mente criativa que me proporcionaram uma tarde interessante demais. Obrigado!

foto por Luiz Prado

Arte para falar de arte #1 – Os motivos de Uma tarde no museu

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Quando comecei a elaborar o larp Uma tarde no museu, meu primeiro interesse estava em discutir a maneira como interagimos com a arte. Queria problematizar a postura passiva que frequentemente adotamos diante das obras artísticas e colocar em evidência o julgamento apressado que costuma acompanhá-la. Para isso, defini que o centro da experiência do larp estaria no exercício do olhar atencioso. O incentivo à busca de sentido na proposta do outro, que representaria uma obra de arte, permitiria aos demais participantes se tornarem co-criadores da experiência artística e, ao mesmo tempo, destacaria a pluralidade de significados presentes numa obra de arte.

O segundo motivo para Uma tarde no museu, surgido a partir da definição de que um dos participantes representaria uma obra de arte, foi a reflexão sobre o cuidado com que falamos do outro. Durante o larp, esse participante seria analisado, debatido e criticado pelos demais, em virtude não apenas de sua performance, mas também de sua aparência. Cabelos desarrumados, um rosto cheio de espinhas ou um olhar sensual poderiam ser discutidos na busca por sentidos artísticos e me interessava observar a delicadeza ou a grosseria destes comentários. A ficção do personagem obra de arte ofereceria aos demais participantes liberdade para elogiar ou criticar o outro, e debater o uso dessa liberdade logo cedo se tornou um dos temas centrais do larp.

Meu terceiro interesse era oferecer aos participantes personagens com diferentes chaves de representação e observar como o diálogo se instituiria a partir daí. Dois participantes teriam o método convencional da palavra falada, mas o outro contaria apenas com sua postura corporal, movimentos mínimos ou um grupo limitado de palavras, de acordo com o suporte artístico que escolhesse. Este participante conseguiria comunicar sua mensagem de maneira exata? Quais significados os outros atribuiriam para sua postura, seu olhar ou seus gestos? Como o participante obra de arte se sentiria, não podendo responder aos elogios ou críticas que lhe fossem feitos?

Ainda neste ponto, mesmo que os outros participantes utilizassem a palavra falada, uma diferença fundamental entre seus papéis poderia estabelecer um cisão que eu também pretendi explorar. Um personagem seria o monitor, tradicionalmente posto como o detentor do conhecimento e da verdade sobre a experiência artística. O outro seria o visitante, entendido como o aprendiz, o não-iniciado, aquele que procura acessar o conhecimento. Meu interesse neste ponto era observar se essa hierarquia, essa relação de poder, seria mantida ou subvertida pelos participantes. E, consequentemente, a partir disto colocar mais uma vez o questionamento original de Uma tarde no museu, aquele exposto no primeiro parágrafo deste artigo: para você, a apreciação artística implica na posse de um conjunto de conhecimentos estabelecidos, transmitidos como verdade por figuras de autoridade ou, ao contrário, baseia-se num processo de apreensão e ressignificação feito pelo público, a partir dos estímulos propostos pelo artista?

Finalmente, completando o conjunto de inquietações que originaram Uma tarde no museu, estava a busca, contínua em minha pesquisa, de abordar o larp enquanto forma de arte. Nessa perspectiva, utilizar a mídia para discutir nossa relação com a arte me pareceu um caminho adequado para valorizá-la como tal.

Exercícios de preparação para Uma tarde no museu

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Em qualquer larp, preparar os participantes para a experiência proposta é fundamental. Explicações claras sobre o jogo, esclarecimento de dúvidas e exercícios de imersão são ferramentas poderosas para deixar o grupo em sintonia e revelar como o larp pode ser vivenciado.

Na experiência de Uma tarde no museu, realizamos alguns exercícios preparatórios, que apresento a seguir.

1. Reconhecimento dos pares

Sentados em círculo, os participantes se apresentam, dizendo seus nomes, idades, ocupações e expectativas quanto à experiência que irão vivenciar. Caso o larp seja realizado num museu ou galeria de arte, conversem sobre a relação do grupo com esse espaço.

2. Pensando a si mesmo

Os participantes caminham pelo espaço, sem pressa. O organizador, calmamente, pede que cada um pense sobre as informações apresentadas na dinâmica anterior: nome, idade, ocupação e expectativas. Em seguida, sugere às pessoas que imaginem variações de si mesmas a partir desses dados. Que outra formação ou profissão você gostaria de ter? Como este outro caminho teria mudado sua vida? Como você se imagina daqui 20 ou 30 anos? O que será diferente em sua personalidade, em sua saúde ou em seu cotidiano? Pense em um novo nome para você. Isso mudaria sua percepção sobre si próprio de alguma forma? Você consegue imaginar outros motivos que poderiam ter lhe trazido a este larp?

3. Olhar o outro

Todos caminham pelo espaço. Assim que o organizador indicar, os participantes param e fixam o olhar sobre outra pessoa, observando-a em seus detalhes: cabelos, olhos, marcas de idade, emoções, roupas. Feito isso, cada um deve pensar numa palavra que defina a pessoa analisada. Em seguida, todos voltam a andar e repetem o exercício pelo menos mais uma vez.

4. Definindo a si mesmo

Enquanto os participantes caminham pelo espaço, o organizador pede que pensem em como se sentem, em seus estados de espírito: alegres, ansiosos, tensos, impacientes? Quando indicar, todos devem parar, adotando uma postura que corresponda ao ânimo observado. À um novo sinal, todos voltam a andar, pensando agora num estado de espírito diferente do anterior. Em seguida, param mais uma vez e se posicionam de acordo com o novo estado.

5. Olhar a obra

O grupo caminha pelos espaço do museu, observando os trabalhos expostos. O organizador indica que prestem atenção às formas, cores, suportes e mensagens das obras. Para cada uma delas, é sugerido aos participantes que digam em voz alta quais ideias e sensações evocam. Caso o larp não seja realizado num espaço de exposições, o organizador pode apresentar alguns objetos em substituição às obras.

A preparação – com explicações e exercícios – não garante a ausência de problemas num larp mas, com certeza, torna o participante muito mais confiante sobre suas possibilidades de ação durante a experiência.

Incluindo mais participantes em Uma tarde no museu

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Uma tarde no museu também pode ser realizado com mais de três pessoas. Para isso, basta ampliar o número de personagens visitantes, monitores ou obras de arte presentes no larp.

Num grupo com quatro pessoas, o novo participante representará outra obra de arte ou um segundo visitante do museu. Já com cinco pessoas, é possível termos duas duplas visitante- monitor dialogando sobre o mesmo trabalho, separadamente, ou dois visitantes e um monitor analisando duas obras distintas.

A partir de seis participantes, três situações podem acontecer: (1) diversas duplas ou trios de visitantes-monitores discutindo uma única obra, (2) uma única dupla ou trio analisando vários trabalhos em sequência ou, (3) múltiplas duplas ou trios conversando sobre diversas obras simultaneamente.

Recomenda-se apenas, para quaisquer destas variações, que os personagens monitores não trabalhem em conjunto e que cada um acompanhe, no máximo, dois visitantes. Isso favorece a relação entre os participantes e a intensidade da experiência.

Por fim, tenham em mente que cada nova obra de arte incluída em Uma tarde no museu acrescenta, em média, 15 minutos à duração total do larp.

Fotos de Uma tarde no museu

Sábado passado, 12 de julho, aconteceu a estreia de Uma tarde no museu, um larp sobre a relação que estabelecemos com a arte e o cuidado com que observamos o outro. No jogo, os participantes representam o público e os monitores de um museu de arte, em visita a uma exposição na qual outros jogadores encarnam obras que integram a mostra.

O larp foi realizado no MAC USP – Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, em meio à exposição O Artista como Autor / O Artista como Editor. Contou com exercícios preparatórios, realização do larp em si e discussão pós-jogo.

A seguir, algumas fotos. Em breve, comentários e análise da experiência.

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Uma tarde no museu

um larp por Luiz Prado

Uma tarde no museu é um larp para 3 pessoas, com duração sugerida de 15 minutos, sobre nosso relacionamento com as artes e o cuidado com o outro.

Nesta experiência, as pessoas representarão personagens criados por elas mesmas e se relacionarão umas com as outras através deles, procurando falar, agir, pensar e sentir como seus papéis. No larp, não existe roteiro definido para a ação: a interação acontecerá de improviso, criada a partir das ideias e respostas de um participante para o outro.

Em Uma tarde no museu, um dos participantes representará uma obra de arte, exposta num museu qualquer. Poderá ser uma escultura, fotografia, instalação, performance, pintura ou qualquer outra forma artística. Para criar o personagem, pense sobre os conceitos que a obra expressa e quais sentimentos ela pretende evocar.

Feito isso, escreva o nome da obra e sua forma num pedaço de papel e prenda-o nas roupas, num lugar visível. Em seguida, posicione-se de acordo com a obra em que pensou. Recomenda-se uma posição confortável, possível de ser mantida até o final do larp.

Os outros participantes representarão um visitante e um monitor do museu. Esses personagens também deverão ser construídos individualmente, antes do início do larp. Sugerimos as questões abaixo para auxiliar esse processo:

Visitante
– Qual é a escolaridade ou formação acadêmica do personagem?
– Qual é a profissão do personagem?
– Qual é a relação do personagem com as artes em geral?
– Por que o personagem está visitando o museu?

Monitor
– Qual é a escolaridade ou formação acadêmica do personagem?
– Por que o personagem trabalha no museu?
– Como o personagem realiza seu trabalho? Ele é um transmissor de conhecimentos ou prefere dialogar com as ideias dos visitantes? Ele é impositivo ou instigador? Dá atenção para escolas artísticas, datas e nomes ou prefere trabalhar a bagagem e as impressões do público?

O larp começa quando o visitante e o monitor aproximam-se da obra. Eles então irão conversar sobre ela, analisando-a e discutindo-a. É importante que os dois procurem observar tanto os aspectos estéticos (formas, cores, linhas, suportes) quanto semânticos (o que está sendo dito) da obra.

Durante todo o larp, a interação da pessoa que representa a obra de arte com os demais deve acontecer apenas pela comunicação que a própria obra oferece. Isso quer dizer que ele não irá falar, rir ou gesticular para os outros, a menos que isso faça parte da proposta da obra.

Quando o monitor ou o visitante sugerir que vejam outra obra, o larp termina. É hora de conversar sobre a experiência.