Coberto de açúcar, trancado numa sala escura, ao som de Cash, Cave e Waits

FRONT72

… eu briguei, sofri, chorei, gritei e morri.

Morte Branca, de Nina Runa Essendrop e Simon Steen Hansen, organizado por Luiz Falcão no Apenas um jogo, Sesc Itaquera, 27/8/17.

Larp sem palavras, comunicação através dos gestos, do toque, do olhar. Um grupo de pioneiros desbravadores que encontram a morte em meio à neve e à tempestade. As criaturas brancas – metáfora e personificação de liberdade e ausência de sofrimento. Um chamado para o fim da dor. Tom Waits, Nick Cave e Johnny Cash.

Os personagens surgem através de uma série de exercícios de preparação. Somos ao mesmo tempo os pioneiros condenados e as criaturas brancas. Os primeiros têm corpos de terra e fogo e recebemos restrições de movimento – a vida é dura e se torna cada vez mais insuportável. As criaturas brancas são água e ar, sorriem, dançam e sentem pela agonia dos homens.

Estabelecemos relações de amizade, competição, afastamento, desconfiança, cuidado. Sete pioneiros/criaturas brancas. Na preparação, o larp inteiro é realizado, todas as suas marcas. Sabemos como a ruína acontecerá, podemos treiná-la, nos prepararmos e experimentarmos. Diminuímos a ansiedade e construímos os personagens. Fazemos a passagem da vida para a liberdade, entendemos como tudo irá terminar.

Pausa para o almoço.

O larp “pra valer” é todo embalado pelas vozes de Cash, Cave e Waits. Melodias e letras sugerem ações e inspiram estados de espírito. Os pioneiros começam solitários e, pouco a pouco, precisam lidar com elementos fundamentais da experiência falida.

O sonho aparece como um punhado de bexigas. É destruído logo em seguida, disputado e tensionado até o limite. Sobram os restos disformes espalhados pelo pequeno círculo iluminado no meio da grande sala, o espaço destinado aos homens.

Em seguida, três sacos de açúcar. Sobrevivência. Apropriação, egoísmo, senso de responsabilidade, excesso. Alguém se banha da cabeça aos pés, outro agarra um dos sacos. Confronto encarniçado, modelado pelos corpos distorcidos e limitados. Choro e gritos de dor quando a sobrevivência é tomada à força. Junto com os sonhos, seus restos cobrem o chão e os corpos.

A fé são as folhas de papel. Adoradas, compartilhadas, disputadas, rasgadas, comidas. Ela se junta à sobrevivência, é apego e rancor. Também termina destruída e fragmentada, abrigada em mãos fechadas e suplicantes.

Vem as tempestades, prenunciadas pelos sinos. Um a um, os pioneiros escapam do círculo de luz e entram nas sombras ao redor. Os corpos se libertam, o sorriso aparece, abraços recebem os recém-chegados. São quatro tempestades. Uns querem ir embora, outros têm medo. Um velho – ou uma criança – é impedido de ser levado e chora de frustração. Três sobreviventes se protegem abraçados, o último afeto. A fé é deixada para os que ficam. Os sonhos e a sobrevivência são amontoados como entulho pelo homem solitário.

Todos são criaturas brancas. Abraços, sorrisos e contemplação. Não há nada, só uma luz fraca que revela sonhos destruídos, sobrevivência espalhada, fé rasgada e morte.

Fora da sala, o sol do domingo faz o dia bonito. As pessoas sorriem, o show do Cólera ainda bate os três acordes nos ouvidos. Sete pessoas voltam ao cotidiano.

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