Evangelho 2020

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Evangelho 2020 é o resultado de algumas vontades inéditas. A primeira, criar um larp entranhado no presente, que tratasse do mundo como acontece agora. Algo como um poema ou crônica de jornal ou canção lançada no calor das coisas. Talvez não faça nenhum sentido daqui 5 ou 10 anos, mas no hoje ele se pretende incisivo. Em 2021, ao menos, ele permanecesse holisticamente atual. Com exceção de FEDERAIS: a chamada da pátria insultada, todos os meus larps anteriores eram atemporais, e mesmo FEDERAIS foi pensado assim (mas o Brasil truca a gente o tempo todo).

A segunda vontade era incluir na própria estrutura do larp mecanismos explícitos de conhecimento e ação política. Corriqueiramente, os larps propiciam o compartilhamento e a criação de saberes de maneira sutil e difusa, apostando todas as suas fichas no que as pessoas trazem e lançam umas para as outras e reduzindo ao mínimo a palavra do autor (ou escamoteando-a, para não sermos tão inocentes). Sempre achei isso o tchananan do larp e persegui muitas vezes esse apagamento – ou neblinamento, melhor dizendo – do autor e continuo sentindo nisso uma das maiores potências e revoluções do larp.

Mas com Evangelho 2020 achei que as cartas precisavam ser baixadas na mesa. O atual governo possui um projeto explícito de destruição da coisa pública e um mapa bem marcado rumo ao autoritarismo e queria um larp de combate a isso. Como está no roteiro: conhecer o que pensam os apoiadores para saber como enfrentar. Não basta chamar seu tio de fascista no Natal ou sair do grupo da família. É preciso compreender porque seu primo sempre muito legal começou a expressar umas ideias políticas babacas para saber como descontruir isso.

Finalmente, uma outra vontade, essa nada inédita, era de continuar a pira de nublar as fronteiras entre larp e “mundo real”, o tipo de coisa que radicalizei com os parangolarps. Não acho que elas existem, na verdade. Para preservar a ordem das coisas, com suas hierarquias e opressões, é feita a manutenção de um discurso essencialista que nos vende a ideia de um “eu único”, de um “mundo real” e outras tranqueiras dessas. Você sendo o personagem em um larp não me parece tão distante de você sendo o funcionário da empresa tal, o filho querido na festinha de final de ano ou o amigo falando besteira na mesa do boteco. Em todas essas situações, você não é exatamente o mesmo: variações mais ou menos sutis compõem essa multiplicidade que é mentirosamente chamada de Eu, no singular e letra maiúscula.

Do mesmo jeito, estar em um larp não é “menos real” que dançar na baladinha, projetar campanhas publicitárias sentado em frente ao computador ou participar dos protocolos de um jantar em família, por exemplo. Mas parece que é, certo? Por isso, em Evangelho 2020 quis trazer o jogo para isso que chamamos a “realidade”, com a transmissão ao vivo e a participação de outras pessoas, além de outros procedimentos que vocês vão encontrar lendo esse roteiro.

Algumas pessoas vão gostar, outras vão odiar. Funciona assim.

Evangelho 2020 – versão para smartphones

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