Festa na casa de Setembro

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Breve relato sobre Calendário no FERVO – 6.9.2017

Em setembro, o FERVO trouxe para São Paulo Calendário, de Caue Reigota. Um larp com roteiro conciso e pouquíssima preparação. Os meses do ano se encontram para decidir a criação de um novo feriado. Cada pessoa sorteia um mês e desempenha o papel, criando livremente sua personalidade e a relação com os demais.

Eu já tinha vivido o Calendário duas vezes, ambas em 2014. A primeira foi na casa do Luiz Falcão, quando conhecemos o larp junto do autor. Já a segunda foi durante um encontro do projeto Redigir, quando organizei, mas não participei do jogo.

Para o FERVO, experimentamos situar o larp numa house party. Sempre me interessou ter as pessoas desempenhando seus papéis em situações triviais, sem estarem o tempo todo comprometidas com um objetivo ou argumento central do jogo. Uma festa, na qual os meses poderiam comer, beber e conversar sobre amenidades, pareceu um cenário bastante atrativo.

Outra experimentação foi fazer as pessoas chegarem no local do larp já como os meses do ano. Não houve reunião antes do jogo com explicações e apresentações, mas sim instruções impressas na porta de entrada, junto de etiquetas para sortear seu mês. Cruzando a porta, você deixava seu eu cotidiano para trás e vivia o mês. Isso também garantiu começarmos o larp no horário marcado e, ao mesmo tempo, permitiu que as pessoas chegassem em horários diferentes – como em qualquer festa, certo?

Tivemos um feliz número de 10 pessoas – mais que o dobro do FERVO anterior – e todo mundo sentiu que a ambientação na house party serviu bem ao larp. Cerveja, vinho, refrigerante, frutas, amendoins, música, as pessoas distribuídas em vários espaços – sala, cozinha, corredores. A reunião desses elementos contribuiu para que se instaurasse um clima de reunião familiar.

Disso, vem a reflexão sobre a influência de cada coisa no sorriso pós-larp. Quanto a ambientação foi responsável pela sensação de “que legal”? Além, quanto ela garantiu o “que legal” apesar do próprio roteiro do larp?

Obviamente, a contribuição vem de todas as partes. Seria outra experiência se estivéssemos sentados ao redor de uma mesa sem mesmo um copo d’água. Da mesma forma, seria bem diferente se a house party abrigasse um outro larp, como o Ouça no Volume Máximo ou o Panaceia, por exemplo.

Tema para reflexão. Por ora, um registro e algumas provocações. =)

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Coberto de açúcar, trancado numa sala escura, ao som de Cash, Cave e Waits

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… eu briguei, sofri, chorei, gritei e morri.

Morte Branca, de Nina Runa Essendrop e Simon Steen Hansen, organizado por Luiz Falcão no Apenas um jogo, Sesc Itaquera, 27/8/17.

Larp sem palavras, comunicação através dos gestos, do toque, do olhar. Um grupo de pioneiros desbravadores que encontram a morte em meio à neve e à tempestade. As criaturas brancas – metáfora e personificação de liberdade e ausência de sofrimento. Um chamado para o fim da dor. Tom Waits, Nick Cave e Johnny Cash.

Os personagens surgem através de uma série de exercícios de preparação. Somos ao mesmo tempo os pioneiros condenados e as criaturas brancas. Os primeiros têm corpos de terra e fogo e recebemos restrições de movimento – a vida é dura e se torna cada vez mais insuportável. As criaturas brancas são água e ar, sorriem, dançam e sentem pela agonia dos homens.

Estabelecemos relações de amizade, competição, afastamento, desconfiança, cuidado. Sete pioneiros/criaturas brancas. Na preparação, o larp inteiro é realizado, todas as suas marcas. Sabemos como a ruína acontecerá, podemos treiná-la, nos prepararmos e experimentarmos. Diminuímos a ansiedade e construímos os personagens. Fazemos a passagem da vida para a liberdade, entendemos como tudo irá terminar.

Pausa para o almoço.

O larp “pra valer” é todo embalado pelas vozes de Cash, Cave e Waits. Melodias e letras sugerem ações e inspiram estados de espírito. Os pioneiros começam solitários e, pouco a pouco, precisam lidar com elementos fundamentais da experiência falida.

O sonho aparece como um punhado de bexigas. É destruído logo em seguida, disputado e tensionado até o limite. Sobram os restos disformes espalhados pelo pequeno círculo iluminado no meio da grande sala, o espaço destinado aos homens.

Em seguida, três sacos de açúcar. Sobrevivência. Apropriação, egoísmo, senso de responsabilidade, excesso. Alguém se banha da cabeça aos pés, outro agarra um dos sacos. Confronto encarniçado, modelado pelos corpos distorcidos e limitados. Choro e gritos de dor quando a sobrevivência é tomada à força. Junto com os sonhos, seus restos cobrem o chão e os corpos.

A fé são as folhas de papel. Adoradas, compartilhadas, disputadas, rasgadas, comidas. Ela se junta à sobrevivência, é apego e rancor. Também termina destruída e fragmentada, abrigada em mãos fechadas e suplicantes.

Vem as tempestades, prenunciadas pelos sinos. Um a um, os pioneiros escapam do círculo de luz e entram nas sombras ao redor. Os corpos se libertam, o sorriso aparece, abraços recebem os recém-chegados. São quatro tempestades. Uns querem ir embora, outros têm medo. Um velho – ou uma criança – é impedido de ser levado e chora de frustração. Três sobreviventes se protegem abraçados, o último afeto. A fé é deixada para os que ficam. Os sonhos e a sobrevivência são amontoados como entulho pelo homem solitário.

Todos são criaturas brancas. Abraços, sorrisos e contemplação. Não há nada, só uma luz fraca que revela sonhos destruídos, sobrevivência espalhada, fé rasgada e morte.

Fora da sala, o sol do domingo faz o dia bonito. As pessoas sorriem, o show do Cólera ainda bate os três acordes nos ouvidos. Sete pessoas voltam ao cotidiano.

Entre o ódio e a solidão dos perdedores

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Impressões sobre Amor, vou matar o presidente, volto já, de Júlio Borges, realizado no FERVO em 10/8/17.

O país explode em caos, fumaça tóxica e doenças sexualmente transmissíveis. Um esgoto a céu aberto arrota pobres e imola o cidadão de bem em fogueiras de inflação, ruas pintadas de vermelho e classe econômica. A boca fechada, a censura das ideias, o cacete preto quebrando os dentes brancos, impedindo as ideias, desde o iluminismo sagradas. A decadência da civilização ocidental, asfixiada com um pano de chão imundo e vermelho. A foice que ceifa seu saco e o martelo que esmaga suas bolas. Bem-vindos ao Brasil de Michel Temer!

Numa noite fria e qualquer coisa de agosto, quatro sujeitos num bar. Anauê 88, Bandeirante Paulista, MobyDick007 e 19. Primeira reunião cara a cara. Meses dentro de um fórum enterrado na deep web vomitando ódio e desprezo e alimentando a ideia: matar o presidente.

Anauê 88. Empresário orgulhoso de ter servido exército e saber manejar uma arma. Bandeirante Paulista. Sugere alguma ligação com os carecas do abc e não fica 5 minutos sem cagar expressões como viado, baitola e dar o cu. MobyDick007. Químico que parece ter se materializado no porão da avó a partir de shitpost e 4chan. 19. Perito em explosivos oriundo de Ribeirão Preto, onde explodiu a própria casa e veio entrar para a história nacional.

Nenhum parece muito preparado para o grande dia. Têm pedaços da agenda presidencial: encontro na Fecomercio, almoço com empresários, reunião na prefeitura de São Paulo. Em algum encaixe da agenda: sua própria morte – gestionada ali, na Gruta, um boteco no centro da cidade, cratera de privacidade e segredo servida pelo Alemão, pessoalmente cortando e temperando queijo+azeite+orégano e encharcando batatas no óleo.

Sem espaço para trivialidade e quem é quem, direto ao plano. Tiro? Explosão? Arpão no peito? Um envenenamento? Não, veneno é coisa de mulher ou viado. Como entrar na Fecomercio? MobyDick007 tem uma amiga que trabalha lá. Confiar em alguém que não está naquela mesa, de cara limpa e sem máscara pelo Brasil?

Pegar o presidente no Campo de Marte. Vai dormir em São Paulo ou Brasília? Com a Marcela? Pegar na prefeitura, explodir o heliporto. Como? Como se infiltrar, pegar no banheiro, explodir o rei na privada? Bandeirante Paulista tem 20 caras prontos para arrumar alguma confusão, só chamar. 19 veio preparado para se explodir. Collor enfiava supositórios de cocaína no rabo. Deve ter enfiado o dedo do Lula também. Bem-vindos ao Reino do Ódio.

Na real, ninguém sabe muito bem o que fazer – ou como fazer. A genialidade e a obviedade discutida por meses, argumentos contra os quais não existem fatos, que só ignorantes e petralhas não entendem – tudo derrete e engasga pelas gargantas. Resta tomar a cerveja, dar uma mijada, resolver na marra. E falar baixo, tem gente no boteco.

Quatro sujeitos abandonados em ódio e solidão. Quantos filhos da puta se escondem com nicks foderosos e não têm culhão de estar ali naquela mesa? Quem está naquela mesa? Quatro homens sozinhos que se alimentam de ódio e preconceito e se defendem com palavra bruta, raiva e certezas de merda. Quando a cerveja baixa  a guarda, um sorriso verdadeiro legenda a busca por atenção, aceitação e pertencimento. Os quatro heróis da pátria vieram matar o presidente ou entreter vidas vazias?

A grande ideia! Alugar um helicóptero via Cabify, sequestrar o piloto, explodir o topo da prefeitura. Não faz muito sentido, não tem detalhes. Parece o suficiente para entupir as artérias de egos dilatados com delírios de grandeza e rancor.

Está pronto. O país está salvo.

Um brinde ao presidente morto!

Ouça no Volume Máximo na Funbox [14.12.2016]

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Sumido, né?

Voltando com atualizações dos acontecimentos em larp. =)

Quarta-feira passada, 14 de dezembro, realizei o Ouça no Volume Máximo na Funbox Ludolocadora, no bairro da Saúde, em São Paulo. O evento marcou a chegada do roteiro do larp por lá. Se você mora em São Paulo e quiser adquirir um exemplar da versão fetiche do Ouça no Volume Máximo, agora pode encontrar na Funbox.

Na boa tradição de hackear os larps, fizemos um jogo com oito participantes – o roteiro indica até sete pessoas. A banda concordou em trocar mensagens por whatsapp e marcar um churrasco para, quem sabe, fazer um som. Rolou uma sessão de fotos ao final e acho que dessa vez a Ouça no Volume Máximo volta.

Agradecimentos aos parças de banda – Augusto Manzano, Daniel Vas, Jorge D’Angelo, Leandro Godoy, Lucas Hideki, Luiz Falcão, Tadeu “Barba” Rodrigues – ao Jaime Daniel Cancela pelo espaço, confiança e parceria, à Bia Mazzaropi, Eduardo Garcia e Tiago Campanário Braga pelos registros em vídeo e foto e ao Rafael “Raca” Carneiro Vasques pela participação especial.

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Fotos por Tiago Campanário Braga.

Não existe fim do mundo para quem já foi embora – Último dia em Antares no CCJ [22.10.2016]

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Antares explodiu. A estrela cresceu inexoravelmente e consumiu a família que buscava paz. Deitados, aconchegados, buscando afetos. Termina assim, com amor.

Depois de realizar Último dia em Antares na Residência Leste, me juntei ao Luiz Falcão para fazer a versão Boi Voador do larp. Assim como foi feito em 2015 com monstros, partimos da premissa de não alterar o enredo do jogo, mas de retrabalhar sua montagem. Figurino, sonoplastia, iluminação e cenografia seriam passados em revista, buscando potencializar certas vivências ou criar novas dimensões para os participantes.

O larp começou com uma série de exercícios preparatórios para o corpo e para o estado de espírito, desnaturalizando os gestos e buscando novas formas poéticas de expressão. A partir das sugestões dadas pelos participantes de Itaquera, acrescentamos também novos exercícios voltados para a reflexão sobre a morte.

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Os personagens foram construídos com ênfase no trabalho corporal e na relação do jogador com a roupa. Exercícios já com o figurino estimularam os participantes a sentir a modificação nos movimentos e a jogar com ela, imprimindo as características dos personagens nos próprios corpos.

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Dessa vez tivemos todos os 7 personagens em jogo e pudemos ver como os corpos mais libertos da criança e da adolescente criaram dinâmicas diferentes com o espaço e com os outros membros da família. Em Itaquera esses dois personagens ficaram de fora.

Quando os personagens estavam rascunhados, os participantes fecharam os olhos e buscaram a conexão. Ao abri-los novamente, se viram  iluminados apenas por leds azuis e na companhia de duas fracas lanternas artesanais.

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Enquanto o jogo avançava, luzes vermelhas foram crescendo progressivamente, acabando por banhar todo o espaço. Ao mesmo tempo, as cadeiras iam sendo arrastadas para dentro do espaço, diminuindo paulatinamente a área dos jogadores. As luzes azuis dos leds iam caindo e se apagando com essa movimentação. Além das cadeiras, a cenografia contou com um novelo de lã suspenso e alguns travesseiros.

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A sonoplastia também sofreu alterações significativas em relação à Itaquera, com o trabalho de sobreposição de trilhas na faixa de abertura e a inclusão de um tema de transição antes da trilha de encerramento, que foi substituída. (Aliás, o tema de encerramento foi assunto de uma boa conversa ao final do larp, sendo questionado sobre seu sentido e diálogo com a situação dos refugiados.)

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Último dia em Antares cresceu muito de uma montagem para outra. Pudemos usar um espaço com blackout, o que viabilizou trabalhar a iluminação dos canhões de luz e das lanternas. Tivemos também mais tempo para os exercícios de preparação e montagem do figurino e isso apareceu de maneira muito clara nos corpos em jogo.

Na conversa pós-larp, além da discussão sobre a música de encerramento, tivemos também um questionamento sobre a forma de sair da experiência. Foi apontado que o larp terminou de maneira abrupta e que a carga emocional construída desde a preparação pedia um processo de “volta ao cotidiano”. Como uma seta certeira. Um ponto que merece um pensamento generoso no futuro.

[todas as fotos por Luiz Falcão]

Um abraço pro Falcão – Residência Leste [29.9.2016]

Antares aconteceu e a estrela explodiu. Tudo ao redor foi consumido e eu quase fui também. O processo foi maravilhoso: a intensidade da pesquisa, o avanço nas experimentações com a linguagem, o trabalho completamente inédito para mim de abrir a criação e dialogar com o público. Antares deu muito certo.

Temos uma material para avançar nos trabalhos do “larp fisíco” e levamos a pesquisa para construção do larp até lugares por onde nunca viajamos. Kantor, Ohno, Moebius. A articulação das referências apareceu ora com sutileza e ora escancarada. A vontade de aplicar as ideias de Kantor, e não só sua poética, aconteceu. O corpo alterado e desnaturalizado surgiu na junção da vontade dos jogadores com os figurinos, dialogando com Ohno – e grande parte dessas ideias veio das conversas na residência! As referências das space operas surgiram também no enredo, nos figurinos.

O larp acontecendo foi instigante. Ver a entrega dos jogadores, a função das cadeiras criando o fim, as tentativas de diálogo sem fala. Existem apontamentos para o futuro, seja de Antares ou dos próximos trabalhos. Melhorar a preparação dos participantes encarnando os personagens talvez seja o item fundamental. Um aquecimento potente acabou perdendo muito de sua força por falta de entrosamento com os figurinos e uma recomposição dos corpos.

Por outro lado, a narrativa surgiu. Em 30 minutos – tempo considerado ideal pelos jogadores – a família viveu o fim, se despediu, se libertou. O larp é a arte do encontro e houve encontro. Quando todos começaram a tirar as roupas-que-limitavam e esvaziaram a boneca-que-era-o-bebê deixando seu peso escorrer pelo chão, eu vi que havia acontecido.

Antares, o processo, a residência, foi ótimo, companheiro.

O que vem a seguir? Uma viagem para o sol e uma vontade de multiplicar os peixes. =)

Uma resenha sobre monstros, por Luiz Falcão

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O companheiro Luiz Falcão publicou esta semana no facebook uma resenha sobre sua participação em monstros, larp realizado no Ciclo de iniciação ao larp no SESC Ipiranga. Com permissão do autor, reproduzo aqui a íntegra do texto.

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Sexta-feira passada eu estive no Espaço de Tecnologias e Artes do SESC Ipiranga para o larp Monstros, de Luiz Prado.

Monstros é um larp físico*, inaugura, possivelmente, nova fase de pesquisa do autor. É resultado, claro, das vivências com o Boi Voador e o NpLarp, da qual destaco com carinho especial a realização de White Death, de Nina Runa Essendrop e Simon Steen Hansen no Laboratório de Jogos 2014 – e (um pouco menos) O Jogo do Bicho. Além disso, concentra o aprendizado das pesquisas anteriores de Prado (como Café Amargo, Ouça no Volume Máximo, Uma Tarde no Museu). Mas não é só. Destaco a influência que o jogo tem das pesquisas de Augusto Boal, muito claras nos exercícios de preparação, mas sensíveis também, ao meu ver, no larp em si.

Foi difícil, no momento que estou passando, me entregar a proposta da experiência – materializar, no seu corpo, seus medos, seus monstros, aquilo te fere, aquilo em você que fere os outros. Mas macaco velho que sou nesse rolê, me dispus a levar isso tão longe quanto eu conseguisse.

Foi também a oportunidade de, pela primeira vez jogando, usar as tais das safewords (palavras de segurança) do larp nórdico (e do rolê BDSM?). Verde (aumente a intensidade), Amarelo (opa, opa… para com isso), Vermelho (para tudo!) – em um larp sem acordos prévios do que podíamos ou não fazer em relação ao outro. Isso por si só é uma experiência bastante complexa, desde se acostumar com o vocabulário dentro do jogo – quando é usado com você e para você mesmo usar com os outros – até a dúvida “será que fulano quer ir além? mas… calma aí… e eu? será que eu quero ir além?”.

Para além de tudo isso, monstros se difere muito de White Death, por exemplo, pela determinação horizontal X vertical. Em White Death, o design do jogo te cerca por todos os lados. Nina e Simon tinham em mente de forma bastante clara e pragmática qual era a experiência que queriam proporcionar aos jogadores de seu larp. Luiz Prado, sendo coerente com sua trajetória, não. Os estímulos que ele coloca no jogo (as descrições, uma “ficha de personagem”, os exercícios preparatórios, a arte de divulgação…) são muito potentes – mas por si só não determinam a experiência do jogador, não o enclausuram dentro de uma possibilidade definida de jogo. Monstros tem um roteiro em 3 atos, que já determinam o que vai acontecer, mas é quase impossível defender uma leitura do jogo como um railroad (um jogo “de cartas marcadas”, onde as possibilidades de ação dos jogadores estão completamente inscritas dentro do design do jogo).

A liberdade e responsabilização dos jogadores é uma marca dos larps do autor. A radicalização dessa horizontalidade, a ideia de arte participativa, é gritante na experiência. Todos são criadores de estímulos, todos são definidores de como é esse jogo, de como ele será jogado. Duas seções de Monstros podem ser absolutamente diferentes – absolutamente mesmo. Tudo depende de como os jogadores interpretarem os estímulos colocados pelo jogo, de como e quanto eles se dispuserem a viver os convites feitos pelo autor, de como eles resolverem dar conta dos aspectos nebulosos das enunciações. Não se tratam se respostas automáticas, dadas mais pelas entrelinhas do discurso organizador da experiência do que pelos próprios jogadores. Aqui trata-se dos próprios jogadores mesmo, sem hipocrisia, sem exagero retórico. É isso mesmo, preto no branco: o jogador coautor da experiência… não preenchedor das lacunas, não interator com conteúdos já definidos… coautor.

* qual larp não é físico? O que quero dizer com isso é que a dimensão do corpo está em evidência nesse larp em relação a outras experiências, mais racionais, cerebrais, centradas na fala. Aqui, os personagens são antes criados com os corpos, e essa é a principal maneira como eles se relacionam também: fisicamente.

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Comentários sobre a experiência de viver um larp são fundamentais para a consolidação da linguagem. Espero que a iniciativa do Falcão estimule mais pessoas a consolidarem na palavra escrita suas vivências. =)

Para acessar a publicação original clique aqui.

Imagem por Paulo Renault.