Um alô para o Goshai

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Pai Coruja e crianças. Secou a Terra do Toró! Confraria das Ideias. Janeiro, 2015. Imagem por Thomaz Barbeiro.

Goshai, te respondo as questões que me fez sobre Secou a Terra do Toró! enquanto tomo uma cachaça mineira e escuto Vinícius numa segunda-feira quente da metrópole. Tenha isso em mente e releve arroubos de pseudo-poesia e voos de grandeza. Tentarei ser sóbrio sem ser sisudo e fazer beleza com as palavras para corresponder à beleza que vejo e respiro no larp.

Primeira questão que me entrega: por que as crianças não receberam personagens em Secou a Terra do Toró!?

Tínhamos fechado com o Sesc que nossa atividade teria duas horas de duração. Ganhar tempo nas explicações sobre o que é larp e como se fazer existir num larp foi ponto pacífico em nossas discussões, tendo em vista que queríamos atender ao maior número possível de crianças. Além, não sabíamos ao certo qual seria a faixa etária com que brincaríamos, o que tornou pouco alumbrante a ideia de desenhar personagens, já que poderíamos ter crianças não entendendo jerico e tornando toda a vivência truncada.

Numa resposta menos técnica e empolada, porém menos elucidativa também, não entregar personagens à molecada nos pareceu mais seguro, dado o ineditismo da empreitada.

Segunda questão: “Rolou debriefing?” (Também traduzido por “houve discussão e troca de impressões com os participantes após a atividade?”)

Não, querido Goshai. A estrutura de Secou a Terra do Toró! acabou aproximando-o muito de um teatro participativo – inclusive, alguns pais nos entenderam como atores, trupe teatral, esses parangolés bonitos e estabelecidos – o que nos fez considerar deixar de lado a discussão de vivências, fazendo dois mais dois com o tempo curto do qual falei acima também. Contudo, tivemos conversas paralelas com alguns destes pais, nas quais explicamos um pouco – pouquinho pouquinho, é verdade – do que estávamos fazendo e ouvimos algumas impressões também.

Obviamente, é claro, as crianças improvisaram melhor que nós ratazanas do rolê e fizeram seu próprio debriefing. Uma delas, assim que a Terra do Toró estava salva, virou para mim e disse “agora vocês tem que vir ajudar a gente, porque nossa terra também está sem água”. Somos tudo amador nessa novela de representação e narrativa, mano velho.

Terceira derradeira questão: rola isso com crianças? (isso, vulgo debriefing)

Olha, acredito que rola sim. Secou a Terra do Toró! foi um projeto piloto, no qual a cautela nos fez equilibrar larp com teatro participativo. Estudamos o terreno, pisamos com a ponta do dedão para ver se o chão era firme ou se iríamos cair terra adentro. A perspectiva é introduzir cada vez mais elementos de larp em atividades como essa, o que inclui, claro, discussão pós-atividade. Da parte que me causa estima, só expectativas positivas para que isso chegue logo!

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Secou a Terra do Toró! – brincando com larp para crianças

Capa

O Corneteiro e o Pai Coruja indicam para as crianças onde uma das corujinhas foi vista pela última vez. Imagem por Paulo Renault.

Em janeiro, a Confraria das Ideias fez acontecer Secou a Terra do Toró!, atividade com elementos de larp voltada para o público infantil. Materializado no Sesc Pompeia, o evento foi meu primeiro trabalho elaborado diretamente para crianças. Assim, achei digno escrever algumas linhas a respeito das escolhas que deram corpo à experiência. =)

Secou a Terra do Toró! apresenta a história de um lugarejo fantástico que teve toda sua água roubada para ser transformada em ouro pelo malvado Bruxo-alquimista Alduíno. Isso levou à devastação da Terra do Toró e subsequente partida de seus habitantes, o que botou o Corneteiro na busca por crianças valentes e de coração puro capazes de trazer de volta os demais. Somente com todos os personagens reunidos os poderes do alquimista poderiam ser combatidos, fazendo a água cair de novo na Terra do Toró.

O malvado Bruxo Alduíno, alquimista que secou a Terra do Toró para fazer ouro. Imagem por Thomaz Barbeiro.

O malvado Bruxo Alduíno, alquimista que secou a Terra do Toró para fazer ouro. Imagem por Paulo Renault.

Nossa primeira preocupação durante o parto da atividade foi criar um jogo que não lançasse mão da violência como meio de resolver conflitos. De partida, definimos que os desafios enfrentados pelas crianças não envolveriam combates e que qualquer tipo de réplica de armas ficaria de fora. O Bruxo Alduíno não seria derrotado numa luta e, tampouco, as crianças encontrariam uma espada mágica ou qualquer outro cacareco bélico, por exemplo.

Com isso na cabeça, decidimos trazer brincadeiras infantis tradicionais a Secou a Terra do Toró! Dessa forma, para levar o Pai Coruja, a Senhorita Teco Teco, o Belo Adormecido e o Mascate de volta, as crianças entraram numa caça às corujas (uma caça ao tesouro com, bem, corujas), estiveram numa das pontas de um cabo de guerra e botaram o corpo para fazer ginástica no cheio ou murcho (variação da Terra do Toró da brincadeira do vivo ou morto). Na escolha das brincadeiras, levamos em conta também o estímulo à atividade física e o imperativo de criar atividades coletivas, evitando repartir os participantes em protagonistas e espectadores das experiências.

As crianças desafiam o Bruxo Alduíno e o Mascate no Cheio ou Murcho. Imagem por Paulo Renault.

As crianças desafiam o Bruxo Alduíno e o Mascate no Cheio ou Murcho. Imagem por Thomaz Barbeiro.

O Mascate e o Bruxo Alduíno tentam resistir às crianças no Cabo de Guerra. Imagem por Paulo Renault.

O Mascate e o Bruxo Alduíno tentam resistir às crianças no Cabo de Guerra. Imagem por Thomaz Barbeiro.

A saída para derrotar o alquimista – uma cantoria coletiva de versos mágicos ensinados pelo Belo Adormecido – também nasceu dessa perspectiva não-violenta, mas veio acompanhada de mais pretensões. À medida que as crianças e os personagens cantavam os versos “Vou tomar com a minha mão/Não vou deixar ninguém roubar/Chuva, raio e trovão/Hoje água vai rolar” Alduíno dizia adeus a seus poderes e a água retornava à Terra do Toró, traduzida em bolhas de sabão. Canto coletivo como metáfora da união popular derrotando a opressão de classe ou indivíduo. Jogo levado a sério.

O Belo Adormecido ensina os versos mágicos para as crianças. Imagem por Thomaz Barbeiro.

O Belo Adormecido ensina os versos mágicos para as crianças. Imagem por Paulo Renault.

O artesanato dos personagens em Secou a Terra do Toró! também carregou reflexões quanto aos valores e imagens comunicados aos participantes. Tentamos deixar de lado estereótipos e mesclar elementos tradicionais dos contos de fadas europeus com referências ao cordel, num trabalho próximo ao que a Confraria já havia realizado em O Reino do Grimm Agreste.

Assim, construímos um bruxo ganancioso e egoísta, que acompanhava os participantes lançando bravatas e gargalhadas; um artista de visual multi-cultural, com sotaque levemente nordestino e papel de guia/narrador para as crianças; uma aviadora, moderna, audaz e independente; um pai literalmente coruja, preocupado com o desaparecimento de seus filhotes; um vendedor meio hobbit, meio matuto, um pouco rabugento e com gosto por jogos; uma Dama da Água inspirada nas fadas da tradição clássica e um Belo Adormecido, indefeso após comer uma fruta envenenada pelo bruxo.

O Corneteiro. Imagem por Thomaz Barbeiro.

O Corneteiro. Imagem por Paulo Renault.

O Mascate. Imagem por Thomaz Barbeiro.

O Mascate. Imagem por Paulo Renault.

Senhorita Teco Teco. Imagem por Thomaz Barbeiro.

Senhorita Teco Teco. Imagem por Paulo Renault.

Belo Adormecido. Imagem por Thomaz Barbeiro.

Belo Adormecido. Imagem por Paulo Renault.

A Dama da Água. Imagem por Thomaz Barbeiro.

A Dama da Água. Imagem por Paulo Renault.

Pai Coruja e seus filhotes. Imagem por Thomaz Barbeiro.

Pai Coruja e seus filhotes. Imagem por Paulo Renault.

Por fim, uma característica distintiva de Secou a Terra do Toró! em relação às atividades tradicionais da Confraria das Ideias é que aqui as crianças não representaram personagens. Ao invés disso, permaneceram sendo elas mesmas, interagindo com personagens vividos por jogadores convidados. Nesse sentido, Secou a Terra do Toró! marca uma aproximação da Confraria com o teatro interativo, ao mesmo tempo em que reafirma a trajetória do grupo na linguagem do larp. Os jogadores convidados não ensaiaram suas representações e também não receberam falas escritas previamente: toda interação com as crianças e entre eles próprios aconteceu de improviso, no terreno próprio do larp.

Essa estrutura híbrida nos permitiu brincar com um número grande de crianças, inclusive um público espontâneo de observadores e participantes nas brincadeiras, que se juntou ao grupo enquanto vagueávamos pelos espaços do Sesc Pompeia. Do lado dos jogadores convidados, foi a oportunidade de experimentar um larp imersivo, que deixou de lado o caráter agonístico e o cumprimento de objetivos para se voltar à vivência integral dos personagens.Bruxo 1Bruxo 2

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Bruxo Alduíno e Pai Coruja. Imagens por Thomaz Barbeiro.

Sem dúvida, Secou a Terra do Toró! representa mais um pulo no estudo da linguagem e das baldeações possíveis que o larp pode estabelecer com outros campos da arte. E também a constatação de que no campo do lúdico, todo mundo pode brincar junto. =)

Meus 5 anos com a Confraria das Ideias

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Há exatos cinco anos conheci a Confraria Das Ideias. Não foi meu primeiro contato com o larp, mas com certeza a primeira expansão de paradigmas que tive com a linguagem.

Elementos que hoje parecem triviais, como temáticas variadas (para além dos gêneros consagrados no rpg), mecânicas simples e personagens construídos não com pontuações, mas com biografias, foram uma novidade para mim naquele 18 de julho e me deixaram fascinado. A acessibilidade, juntando crianças e adultos e garantindo que qualquer pessoa, mesmo sem experiência em larp ou rpg, pudesse participar também me surpreendeu, desmistificando a ideia de que a linguagem era só coisa de iniciados.

Desde então, minha vida mudou. De passatempo, o larp virou hobby e daí profissão. Vivenciei muitos larps da Confraria e, depois, tive a grande satisfação de ser convidado a integrar o grupo, iniciando uma trajetória que se tornou um dos aspectos centrais do meu dia a dia. Conheci muita gente e muita coisa, fiz amigos e parceiros, através do larp.

Se eu penso, discuto, faço, brigo, gargalho, choro, amo e vivo larp, sem dúvida parte disso começou lá no Arraiá de Assumpção.

O Reino do Grimm Agreste

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Tem larp da Confraria das Ideias neste final de semana!

O Reino do Grimm Agreste é um larp fantástico que mistura o universo da literatura de cordel aos contos maravilhosos dos irmãos Grimm. Criado a partir da exposição Grimm Agreste do Sesc Interlagos (São Paulo), convida os participantes a se tornarem cavaleiros e cangaceiros, princesas e marias-bonitas, madrastas e coronéis. O larp utiliza a própria exposição como cenografia e será realizado duas vezes, sábado (21/03) e domingo (22/03).

Ouvi dizer que algumas surpresas realmente surpreendentes esperam os jogadores. Eu não perderia, se fosse você. =)

QUANDO: 
SÁBADO E DOMINGO, DIAS 22 E 23 DE MARÇO, 
às 13h (início do larp, chegar com antecedência) 

ONDE: 
SESC INTERLAGOS, durante o evento NERDcon 
Av. Manuel Alves Soares, 1100 – Parque Colonial, São Paulo – SP, 04821-270 

INSCRIÇÕES: no local, a partir da abertura do evento as 10h.

ENTRADA: associados do SESC, comerciários e aqueles que estiverem vestidos com qualquer “caracterização nerd”: entrada FRANCA. Para os demais: R$ 3,00

COMO CHEGAR:

Ônibus na estação Jabaquara:
675M-10 – Centro Sesc
675R-10 – Grajaú

Metrô/Trem/Ônibus
Estação Pinheiros (Linha Amarela)/Estação Pinheiros (CPTM) até Estação Primavera-Interlagos
Ônibus 6027-10 – Jd. Graúna/Santo Amaro
 
O Sesc Interlagos fica a 1300 metros da Estação Primavera-Interlagos, mas o ônibus deixa em frete da portaria.
 
Para evitar desconfortos confira os sites das empresas de transporte para confirmar sua disponibilidade nos dias do evento:
Ônibus SPTrans: http://www.sptrans.com.br
Metrô e Via Quatro (Linha Amarela): http://www.metro.sp.gov.br e http://www.viaquatro.com.br