noite escura da alma

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noite escura da alma é um larp para uma pessoa. Você é um escritor com uma doença terminal passando um dia de folga num lugar estrangeiro. É para ser meio vida real meio jogo.

A ideia inicial era um jogo sobre imigrantes no Brasil refletindo sobre seu trabalho. O larp ganhou vida, mas não tinha alma. Os jogadores ficavam trocando de personagem e comendo farinha, uma porcaria. Preferi um jogo sem vida, mas com alma.

Esse larp fecha uma trilogia que começou com Vamos conversar lá fora? e seguiu com andando na rua, sendo espancado. Aspectos formais e temáticos fazem uma unidade desses três jogos. Não são minhas obras-primas, mas lançam por aí umas provocações sobre a linguagem.

Os três foram escritos numa fase meio merda da coisa toda e não pretendo mais criar jogos desse tipo. noite escura da alma fica aí fechando as portas dessa escuridão toda.

noite escura da alma

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andando na rua, sendo espancado

le-suicide

Um novo larp.

Houve uma vontade de minimalismo e provocação estética. A prática comprovará se desejo se traduz em ação.

Cada larp, pensado como obra artística, encerra proposições que fundem forma e conteúdo. Retirar a fala, desviar o contato visual e propor a introspecção são soluções formais para tratar do estado de espírito suicida: um sentimento esmagante de solidão e uma expectativa envenenada de ansiedade.

No outro papel, a interrogação diante do que se passa com o suicida. Dúvida que é comumente lida como descaso e abandono, tornando-se combustível para a morte.

Como sempre no larp, é uma dialética dos afetos, vestida com o signo da ficção. Dessa vez, escolhi o contato físico (“Ó pecador! Transgressor do mandamento sagrado do não me toque!”) como protagonista por entender que, às vezes, os corpos dialogam melhor através do calor, do cheiro e do tato. Há verbo demais, cheio de ruídos, mentiras e balões de gás. Abrace o outro e não transforme isso numa aberração.

Minha primeira experiência significativa com o toque foi durante A Clínica: Projeto Memento (Luiz Falcão, 2011), quando passei alguns minutos deitado e abraçado a outro jogador, fazendo a famigerada conchinha. Na época, um contato desse tipo e intensidade era algo bem destoante e, obviamente, foi comentado com surpresa e certa comicidade depois. Para mim, foi a constatação de que era possível e recomendável se engajar na coisa, entrar a sério no jogo.

Ano passado o abraço mostrou novamente sua força em Breu (Eduardo Caetano, 2017). Quando meu personagem enlaçou o alcoólatra incorporado no Tadeu Rodrigues, foi o limite para que ele tomasse a decisão de condenar seu próprio papel à morte e à miséria do chão frio de um banheiro.

Minimalismo. Junto de Vamos conversar lá fora, considero andando na rua, sendo espancado como um flashlarp: uma experiência rápida e altamente concentrada. Poderia ser também um hailarp. Jogue e, depois, jogue novamente. E mais uma vez. Um shotlarp. Vire tudo de uma vez e sacuda a cabeça. É uma redução, ainda mais radical do que em jogos como Café Amargo ou Jesus Cristo Cupcake, ao essencial da proposição. A profundidade ou significância da experiência, mais uma vez, está à sorte da ação.

Por isso, mande um alô caso você se arrisque no jogo. Escreva para o e-mail indicado na última página do programa ou me procure na Rede Social. Ficarei feliz em saber como você viveu a ficção.

andando na rua, sendo espancado