Último dia em Antares no CCJ – 22/10

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Vamos viajar mais uma vez para Antares!

O Boi Voador realiza no sábado, 22 de outubro, o Último dia em Antares. Dessa vez, o companheiro Luiz Falcão se junta de maneira ostensiva no trabalho, para a gente dar a visão bovina de Antares.

A ideia é recriar vários aspectos da cenografia, figurino, iluminação e sonoplastia do larp, trabalhando com o conceito de “mesmo texto, montagem diferente”. O enredo, os personagens e as dinâmicas serão as mesmas, mas nossa vontade agora é retrabalhar uma série de elementos, experimentando novos estímulos para os participantes.

Para quem chegou agora aqui no site, Último dia em Antares apresenta a história de uma família de refugiados da guerra que acaba indo parar num planeta desolado prestes a desaparecer na explosão da estrela Antares. O momento do larp corresponde aos últimos minutos de existência daquela família, que fugiu da guerra, mas não da morte.

Último dia em Antares é fruto de um processo de residência realizado no Sesc Itaquera. Ao longo de setembro, fui pesquisando referências de óperas espaciais, do trabalho do encenador polonês Tadeusz Kantor e do coréografo e bailarino japonês Kazuo Ohno para criar um larp focado no corpo. Durante o jogo, não existe comunicação pela palavra falada e os participantes se relacionam através dos gestos, do toque e do olhar.

O larp acontece a partir das 21 horas do sábado, 22/10, no Centro Cultural da Juventude, o CCJ. A participação é gratuita e as vagas limitadas. Para se inscrever, é só enviar um e-mail para boivoadorlarp@gmail.com.

O Centro Cultural da Juventude fica na Avenida Deputado Emílio Carlos 3641, na Vila Nova Cachoerinha, em São Paulo SP.

Um abraço pro Falcão – Residência Leste [29.9.2016]

Antares aconteceu e a estrela explodiu. Tudo ao redor foi consumido e eu quase fui também. O processo foi maravilhoso: a intensidade da pesquisa, o avanço nas experimentações com a linguagem, o trabalho completamente inédito para mim de abrir a criação e dialogar com o público. Antares deu muito certo.

Temos uma material para avançar nos trabalhos do “larp fisíco” e levamos a pesquisa para construção do larp até lugares por onde nunca viajamos. Kantor, Ohno, Moebius. A articulação das referências apareceu ora com sutileza e ora escancarada. A vontade de aplicar as ideias de Kantor, e não só sua poética, aconteceu. O corpo alterado e desnaturalizado surgiu na junção da vontade dos jogadores com os figurinos, dialogando com Ohno – e grande parte dessas ideias veio das conversas na residência! As referências das space operas surgiram também no enredo, nos figurinos.

O larp acontecendo foi instigante. Ver a entrega dos jogadores, a função das cadeiras criando o fim, as tentativas de diálogo sem fala. Existem apontamentos para o futuro, seja de Antares ou dos próximos trabalhos. Melhorar a preparação dos participantes encarnando os personagens talvez seja o item fundamental. Um aquecimento potente acabou perdendo muito de sua força por falta de entrosamento com os figurinos e uma recomposição dos corpos.

Por outro lado, a narrativa surgiu. Em 30 minutos – tempo considerado ideal pelos jogadores – a família viveu o fim, se despediu, se libertou. O larp é a arte do encontro e houve encontro. Quando todos começaram a tirar as roupas-que-limitavam e esvaziaram a boneca-que-era-o-bebê deixando seu peso escorrer pelo chão, eu vi que havia acontecido.

Antares, o processo, a residência, foi ótimo, companheiro.

O que vem a seguir? Uma viagem para o sol e uma vontade de multiplicar os peixes. =)

O Fim – Residência Leste [22.9.2016]

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Dada a correria que tomou conta da existência nos dias que antecederam Antares, um relato tardio. O larp aconteceu ontem. Estão todos bem e vivos, apesar da ficção. Retomo algumas impressões, agora mais enevoadas, do penúltimo dia da residência, o último dia da preparação. Falta frescor, mas acho que a sensibilidade das impressões ajuda. Vamos lá que a estrada continua.

Na quinta-feira som e luz. Grata surpresa chegar no Sesc e ter a sala onde o larp aconteceria disponível. Passamos a tarde fazendo experimentações com cenografia e testando iluminação. Foi nesse momento que se definiu o espaço para Antares, com aquela magia das soluções que surgem depois de muito trabalho na cabeça e parecem estalos momentâneos. As cadeiras no espaço, que não poderiam ser retiradas. Primeiro um problema, depois uma referência gritante de Kantor e um marcador bem satisfatório da área de jogo. Não queria usar a sala toda, mas demarcar um espaço de atuação para os jogadores, na busca por uma atenção menos dispersa com os elementos contemporâneos do espaço que não poderiam ser eliminados (cortinas, projetores, portas). As cadeiras não só criaram o círculo, mas suportaram as luzes do larp. Próximo parágrafo.

Na quinta-feira uma tarde ensolarada. Percebemos que seria inútil iluminar o espaço. As luzes não entrariam nessa função. Elas se tornariam um elemento cenográfico também. O ETA dispunha de uma série de lâmpadas led que poderiam criar caminhos, pontos focais… ou estrelas no firmamento. Testamos pequenas luzes azuis nas cadeiras e o resultado foi bonito, significativo e potente.

Levamos para o espaço grandes pedaços de madeira que chamaram atenção pelo tamanho e peso. A manipulação das peças me pareceu interessante para os corpos e havia certa estranheza nas escalas demarcadas pelas madeiras. Entraram. Seriam o elemento indefinido para criar o cemitério: destroços, restos mortais de gigantes, lembranças ampliadas dos queridos que passaram? Deixar em aberto sempre foi a direção a seguir. Assim foi feito.

Essa configuração mostrou que a ideia de um tecido cruzando o espaço para ser a estrela Antares se aproximando não se realizaria. Não havia tempo, não havia teste, não havia soluções eficientes e ágeis para suportar o peso dos tecidos. As luzes azuis no firmamento de cadeiras explodiu a ideia nova. Durante todo o larp, substituir as lâmpadas azuis por vermelhas, pontuar a chegada inexorável de Antares. E mais, empurrar as cadeiras para o centro a cada troca de lâmpadas, reduzindo o espaço dos jogadores. Mais um quê de Kantor: a presença em cena do organizador, interferindo no jogo entre os participantes, um elemento estranho à ficção. Ready-made.

O espaço apareceu, enfim. Tínhamos o círculo de jogo, Antares em expansão e o cemitério. Sabíamos como utilizar as luzes. Voltamos ao ETA e nos jogamos no som.

Apresentei alguns áudios de tambores japoneses, na perspectiva de diálogo com o butô. Surgiu Morton Feldman e deixamos alguns trabalhos rolarem. Rothko Chapel me chamou atenção logo de cara. Atmosfera e duração casavam com minhas intenções. Dias depois, conhecendo a história da composição, da capela e do artista que a nomeia, se confirmaria dentro do larp.

Fim da parte 1 do final.

*relato escrito ao som de Milagres dos Peixes, Milton Nascimento.

Corpo, moda e identidade – Residência Leste [18.9.2016]

Dia de vestir os corpos. Dia de criar os corpos. Em Antares, os corpos adquirem posturas e movimentos não convencionais, influenciados por Kazuo Ohno e o butô. A ideia é que a movimentação traduza as disposições mentais e emocionais dos personagens e sirva como vocabulário para a comunicação. Não há verbo em Antares: as relações acontecem entre os corpos, na leitura dos gestos e na polissemia da dança.

Uma parte da criação desses corpos novos está no figurino dos personagens. Mais do que cobrir quem usa, a roupa entra em Antares propondo novas posturas, sugerindo movimentos e trazendo leituras para quem a observa. São sete personagens, seis jogadores. Momentos diferentes da vida: a velhice, a idade madura, a juventude, a adolescência, a infância. Cada um deles propõe um corpo diferente, um jogo novo com o espaço, os objetos e o outro.

Discutimos bastante isso. Materiais para trazer sensações, impacto visual, desnaturalizar o movimento. Texturas novas para o caminhar, pesos para desacelerar a ação, restrições com cordas. Um personagem com braços amputados traz cordas para imobilizar os pulsos do jogador junto aos ombros. Um personagem idoso sente o peso da idade com bolas de gude nos pés e nas mãos. A mulher de meia idade que sente a falta do marido morto arrasta o cadáver consigo. Uma criança destoa desse corpos com roupas leves e movimentos fluidos.

A base para os figurinos em Antares vem das referências das space operas e mundos espaciais. As obras de Moebius, Saga, Star Wars, Jodorowsky. Gorros, ponchos, saias, mochilas e outras peças do imaginário viajante, refugiado e retirante. Esse é o ponto de partida para levar o jogador a Antares. A segunda camada são os objetos e peças que criam novos corpos. Esses não são realistas ou ilusionistas. As bolas de gude nos pés do velho não existem na ficção de Antares: são elementos extra-diegéticos para gerar uma experiência real que dialoga com a experiência da ficção. Os figurinos não precisam jamais ser realistas aqui. Eles devem, concordando com as ideias de Kantor, serem por si só. A criança que usa saia para expressar leveza usa realmente a saia, sendo isso coerente ou não. E ela não deve ser ignorada. Sua existência com cor movimento textura faz parte da experiência. Assim como o saco de arroz carregado pela mulher que sente falta do marido. Em Antares nada se finge ou se ignora. Colagem, ready made.

Próxima etapa do trabalho é finalizar o conjunto para cada personagem, sempre nessa relação camada refugiados + camada desnaturalização do corpo. Depois, sair às compras. Menos de uma semana, momento de fazer nascer.

*corpo, moda e identidade são as palavras-chave de um trabalho realizado em 2015 na SP Escola de Teatro. Fazendo todo sentido nesse contexto, faço-o ready made.

**relato escrito ao som de Jack Johnson no Kokua Festival, Havaí, 2008.

Materializando o fim – Residência Leste [15.9.2016]

Dia de operar finalmentes. Após quatro encontros teóricos e expositivos, de expansão das ideias e vislumbre de universos, começou o momento de traduzir para a matéria tudo que foi falado e pensado. Hora de assumir o possível e sangrar para o além. Hora de controlar as expectativas e ansiedades e dar saltos. Parece grandioso demais para um dia de colar madeiras e brincar com barbantes.

No encontro desta quinta-feira, a cenografia foi encaminhada. Antares conta com 4 elementos para criar a paisagem material de interação entre os personagens: assentamento dos refugiados, cemitério/ruínas de tempos antigos, o solo onde os personagens se movimentam e a própria estrela. Cada um tem a proposta de ser um elemento de interação corporal, indo além da mera ilustração referência do olhar. Ao mesmo tempo, a busca atravessada pela poética de Kantor é fazer desses elementos coisas em si, não representações. Nessa chave, o trabalho se pautou por pensar soluções não-realistas, não-miméticas para esses espaços.

Na duração do encontro focamos o trabalho nas experimentações com o assentamento. Testamos construções de madeira, com formatos que permitissem aos jogadores movimentos variados e incomuns. Brincamos com objetos do Espaço de Tecnologias e Artes: aros de bicicleta, barbantes, carretéis, guarda-chuvas. Um momento de livre jogo, de sentir para depois pensar. Um momento que poucas vezes tive o prazer de realizar na construção de um larp. Curti. Espero fazer isso mais vezes.

Algumas definições apareceram para além das experimentações. Antares irá expandir explodir consumir tudo a sua volta. Esse é o motivo do fim. Antares deverá traduzir isso no ambiente. Deverá crescer e tomar o espaço de ação dos participantes. Não será uma representação ilusória, como uma esfera ou projeção. Será algo mais abstrato e do tato. Um tecido que vai atravessando o espaço, restringindo os movimentos, envolvendo todos os personagens. Algo assim. O solo arenoso da ficção se torna uma superfície de contato alienígena, que desafia os pés descalços com o desconhecido. O cemitério/ruína foi menos construído, mas na cabeça ficam imagens de grandes manequins, gigantes mortos de tempos distantes. Uma referência explícita a Kantor. Não sei. Talvez.

Próximo momento é a vez do figurino. A contagem regressiva começa a formigar a barriga. Antares começa a aparecer com mais clareza. Vai ser legal. Está sendo ótimo.

*relato escrito ao som de propaganda eleitoral no rádio e impressora vomitando papéis.

Buscando o sublime – Residência Leste [11.9.2016]

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Butô.

Butô. Fazer os corpos dançarem em busca da pergunta que se sabe não ter resposta. Dançar no limite. Deixar o corpo falar dos sentimentos mais profundos, da angústia, da memória, da morte, dos ciclos da vida. Para Antares, o corpo é quem está no centro do diálogo. A palavra fica de fora. São os gestos, o corpo desenhado no espaço, que irão estabelecer as relações da família prestes a desaparecer.

Quero aprofundar a pesquisa do corpo no larp. Criar experiências nas quais o corpo seja desatrofiado. Morte Branca, de Nina Runa Essendrop e Simon Steen Hansen, foi a primeira experiência com o Boi Voador. Depois vieram Uma tarde no museu e monstros. A proposta agora é ir além, procurar um vocabulário dos gestos, estabelecer um diálogo que prescinda da palavra. Trazer a representação das mentes e do verbo para a visceralidade do corpo. Por isso, a visceralidade e urgência do butô. Por isso, a imagem soco na cara do corpo decaindo, do embate entre vida e morte com delicadeza de Kazuo Ohno.

O butô surge no Japão pós-guerra, fim dos anos 50. O país procura se reconstruir e os artistas buscam novas formas de expressão, que ultrapassem a tradição, agora posta em xeque pela guerra, e não sejam apenas imitação do ocidente. Tatsumi Hijikata cria o ankoku butô, a dança das trevas. Morte, homossexualidade, decadência são os temas tabu postos no corpo.

Kazuo Ohno está desde o início com Hijikata, mas leva sua dança por outros caminhos. A escuridão perde espaço para o sublime – agradecimentos à Erika Bundzius por reforçar o termo na minha cabeça =) – há um carinho, aliado à melancolia da memória em seus movimentos. O corpo que se enraíza no chão continua, o tensionamento de articulações, mãos, dedos, pés e costas se mantem incômodo ao olhar. Há uma nova fluidez, contudo, o movimento se liberta e entra no jogo entre tensão e leveza. Aí entramos em Antares.

A consciência da morte nos personagens não está na chave do desespero. Saber que só restam algumas horas leva à potência da vida, à potência das ações que serão realizadas pela última vez. Cada gesto, cada relação, cada olhar adquire força como jamais teve e jamais terá. É uma homenagem à vida em seus aspectos mais individuais e singelos. O toque de carinho que se banalizou volta como expressão máxima de afeto. O toque no solo é o contato íntimo com o mundo. Nunca mais os pés encontrarão esse chão que nunca foi percebido como prolongamento do eu. Essas brisas. Antares é uma grande brisa do estar vivo. Do corpo percebendo estar vivo. Da comunicação que criamos com esses corpos em máxima vida.

O grotesco unido ao delicado em Kazuo Ohno traduz no corpo as sensações propostas na estrutura de Antares. E como fazer isso, Luiz Prado?

Um passo na investigação foram os exercícios realizados neste domingo com os participantes do encontro. Depois de uma introdução ao butô e a Kazuo Ohno, com partilha das pesquisas e exibição de vídeos, levantamos os corpos para investigar como nossos movimentos podem ser lidos. Estudamos o movimento lento, a criação de imagens objetivas e subjetivas e a tentativa de diálogo. Foi um esboço. O tempo curto nos tomou a possibilidade de uma investigação mais profunda. Contudo, as leituras se mostraram possíveis. Antares se mostrou possível. A polissemia surgiu com força e os corpos falaram.

Em termos práticos, o encontro deste domingo reforçou a certeza da necessidade de criar uma preparação para os corpos antes do larp. Aprender um novo idioma para entrar num mundo novo. Mesmo que por alguns poucos minutos. E morrer nesse mundo para voltar ao nosso com alguma coisa. Alguma coisa.

*relato escrito ao som de On and on, Jack Johnson.

O Larp da Morte – Residência Leste [8.9.2016]

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Último dia em Antares é a história de uma família de refugiados vivendo seus momentos finais num planeta na putaqueopariu do universo rodando em torno da estrela Antares. Os personagens sabem que é o último dia, os jogadores sabem que ao final do larp todos eles estarão mortos. Não há módulos de fuga para consertar, magias para barrar meteoros, negociações sagazes contra alienígenas malvados ou rituais ero-catárticos para deuses do abismo. Último dia em Antares é um larp sobre a consciência da morte e o que fazemos diante disso. É um larp sobre o que fazemos com o que resta da vida. É um larp sobre a vida, enfim.

E é um larp apunhalado por Tadeusz Kantor. Encenador e cenógrafo, artista plástico, performer, cara do happening. Kantor foi um vanguardista declarado, que sempre tentou levar seus trabalhos aos picos mais radicais da arte, chutando boa parte do que seus contemporâneos faziam e buscando chegar no limite. Defendeu um teatro autônomo, obra de arte por si mesma e não apenas tradução do texto. Defendeu os objetos relegados da existência como os artefatos mais poderosos para se entender a realidade. Disse não à obra de arte dos museus e galerias, aos trabalhos homogêneos e fechados. Defendeu a colagem, a montagem, o acaso, a intuição. Cresceu o pensamento até se contradizer, sem medo. Criou espetáculos que desafiaram as convenções do teatro.

Depois de passar semanas me entupindo da loucura da poética de Kantor, a ideia era trazer alguns de seus pensamentos para a criação de Antares e, especificamente neste dia 8, socializá-los com o público. Minha intenção nunca foi levar ao larp simplesmente as máquinas construídas pelo encenador, ou traduzir suas obras. O grande rolê era entender como sua poética poderia atravessar Antares e levar a linguagem para um lugar que eu nunca havia pisado antes. Para isso, foi preciso entender os manifestos de Kantor, como eles diziam respeito e se mostravam em suas obras e, a partir daí, pensar o larp a sua luz.

Condensar quase 50 anos de pensamento é ridículo e, por isso, decidi deixar as reflexões mais fortes ditarem suas prevalências. E, nesse sentido, as ideias contidas no manifesto O Teatro da Morte – materializado no espetáculo A Classe Morta, de 1975 – com certeza vieram explodir no coração de Antares.

Fazendo um resumo bem sem vergonha, o Teatro da Morte fala do uso de manequins – ou bonecos de cera – em cena, como uma manifestação da morte, da ausência de vida. Tanto para o público quanto para os atores. Esses manequins, em sua aparência humana desprovida de movimento e destino, nos lembram de maneira brutal da morte e, por isso mesmo, conseguem falar de maneira potente sobre a vida. Kantor traça uma analogia entre os manequins e os atores: ambos do lado de lá de uma linha invisível em relação ao público, ambos apartados de nós e, por isso mesmo, capazes de chamar atenção para nossa própria condição. Em suma, é a ausência que nos fala da presença. Em suma, é o golpe que nos fala da democracia.

Ora -ora é uma expressão duca de erudita para começar um parágrafo =P -, Antares fala exatamente disso aí. Na certeza da morte, no esvaziamento de qualquer possibilidade de lutar contra ela, temos a reafirmação da vida, a potencialização das ações últimas das personagens. Nos momentos finais, cada gesto, palavra ou relação tem um destaque como jamais outro, tem uma existência repuxada do mar do cotidiano, passa a existir com uma força que nunca teve – justamente porque nunca mais terá. Essa retirada do ciclo lógico e utilitário da vida é exatamente outro ponto caro ao trabalho de Kantor, que buscou ao longo de vários projetos trabalhar com a realidade pronta – o ready made – para destacar a existência em si dos objetos e ações. A ideia é perceber as coisas como elas são, as ações como elas são, as relações por si mesmas, afastadas de suas utilidades ou consequências. E afastadas também de suas funções ilusionistas. Para Kantor, a obra de arte não deve imitar o real. Deve ser o real destacado dentro do próprio real. Isso vale para o teatro, para as artes plásticas… e para o larp?

Tradicionalmente mímese – ou desejo louco de mímese – o larp chega em Antares nessa procura por uma nova realidade autônoma. A busca não é imitar as relações da vida – mesmo que estejamos num planeta longínquo – mas fazer da experiência do larp algo autônomo, com estruturas que dizem respeito apenas a ele. Num exemplo, Kantor detestaria Café Amargo, com sua busca louca por ser imitação da realidade. Talvez se um macaco se despedisse de um envelope, sem motivos para ir embora, fosse mais perto dos desejos do velho polonês.

Enrascada, Prado? Desafio.

Domingo a gente traz o Ohno para brincar com a gente.

*relato escrito ao som de Recipe for Hate, Bad Religion.