Os larps estão no RPG Grátis

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O RPG Grátis é um site novo que junta programas/roteiros/manuais/livros de “jogos de contar histórias de forma coletiva”: larps, story games, jogos narrativos, rpgs e sua parentela toda. Como seu sobrenome revela, todo o conteúdo lá é grátis. O rolê é simples: você navega entre categorias – status, gênero, subtipo, autor – e é direcionado para os links originais dos jogos, já disponibilizados 100% na faixa por seus autores.

Tem um número expressivo de larps meus que estão listados lá. Alguns habitam aqui nesse site, mas outros vivem flanados pela web, principalmente no site do Boi Voador. o RPG Grátis é a sistematização mais completa desses roteiros até agora!

Alguns outros autores já aparecem por lá também, como a Lívia Von Sucro, o Igor Moreno e o compa Luiz Falcão. Espero que cresça. Esse tipo de constelação sempre cabe no céu.

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Manifesto do Jeitinho Brasileiro

Começou como uma brincadeira, mas como brincadeira no larp é coisa séria, o Barba escreveu.

Foi na casa do Falcão, depois de algum larp (qual?), manifestando indignação meio-verdade, meio-galhofagem com a reivindicação dos italianos sobre o “jeito sulista”. Meio alto p/ ser o sul, né não?

De jeito para jeitinho foi só um-dois. Minha principal vírgula ao parimento do manifesto foi justamente o título. Jeitinho brasileiro é um mamute semântico que, na época, não me parecia adequado tim tim por tim tim ao que fazemos. Malandragem, malemolência, gatunagem? Oportunismo, espertalhismo e ladroagem? Mal-resolvido. A reivindicação nacional anda em tempos complexos hoje. É brasileiro ou simplesmente periférico? Ser brasileiro é necessariamente periférico?

O Barba, contudo, chapou na ideia e materializou em palavras tec tec de teclado. Fez um trabalho horrorduca. As referências tupiniquins ficaram massa e juntaram bem com todas as extrapolações daquela noite.

Concordo com muita coisa do texto consolidado, particularmente o “jogar para somar” (um desenvolvimento orgânico do ultrapassado jogar para perder e tão óbvio que nos fugiu por tanto tempo) e o lance da ocupação, que aparece no ponto 5 e anda atualmente derivando e baldeando forte aqui na cabeça (Andarilho, noite escura da alma). O rolê do toque é mais uma reação do que uma postura ativa, e acho que vale mais debateboca sobre isso. Como exatamente atacamos o contato físico? Como fazemos dele ativação e jogo?

O texto do Barba, no junto do complexo, já me nasce histórico. No sentido de capítulo e marco. É o primeiro manifesto arremessado dos trópicos (1), no momento em que as espadas de espuma e as orelhas de elfos se erguem em colosso impávido nas terras do Ipiranga (2) e a iconofagia deglute o larp estrangeiro (3)  – quando o quarteirão do larp blockbuster será arrasado?

É o contraponto, o peito jogado para trás seguido do giro de quadril e a patada com o calcanhar do capoeira. É o o truco, em português, italiano e english: Ei, brasileiros, esse é o larp que importa por aqui! Ei, italianos, tem mais sul além do Mediterrâneo? Ei, friends, alguma coisa não tá podre pra cacete na social-democracia da Dinamarca?

Ah, e o trabalho gráfico do Falcão com as ilustras do J. Carlos são de torcer o rabo do bonobo também!

Andarilho aterrissando em São Paulo p/ encerrar 2018!

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2018, um ano intenso.
Arritmia constante, política escaldante, vida acachapante.
O Brasil num helter skelter de brisa errada, euforia química, bat vibes e dilatação do ego.

Um território, realmente, a ser estudado por alienígenas.

Andarilho é um larp que fiz em 2017, inspirado por Stalker, filme do russo Andrei Tarkovksy. É a história de pesquisadores extraterrestres – os tais andarilhos do título – que derivam pelas ruas terráqueas buscando compreensão da sociedade humana.

A busca do jogo é pelo olhar desnaturalizado sobre o espaço público e a sociedade. É um convite a enxergar as mesmas coisas de todos os dias com um olhar novo. Olhar alienígena. É uma provocação para não achar normal o que é normal e chafurdar nos escuros das rachaduras à procura de luzinhas novas. É bem brisa, em resumo.

É um larp de ocupação do espaço público e um larp que se mete no espaço público. Invisíveis e anônimos, os jogadores flanam e jogam disfarçados no meio das multidões.

Vai acontecer sábado 16 de dezembro, a partir das 19 horas, no Largo da Batata, em Pinheiros, do lado da Estação Faria Lima do metrô. O ponto de encontro são uns banquinhos em frente à Igreja lá do largo (Paróquia Nossa Senhora do Monte Serrate). É de graça, mas recomendo levar uns trocos para um café/suco, sugeridos para o início e o encerramento do larp.

“NOSTALGIA – um larp sobre as outras memórias” | Relato do 8º SPA – Seminário de Pesquisas em Andamento

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foto por Anna Carolina Piccinin Piro

 

Chris Alexsander Martins botou para acontecer o Nostalgia como uma das atividades do 8º SPA – Seminário de Pesquisas em Andamento, evento acadêmico da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Ele escreveu a respeito e segue abaixo o relato:

RELATO “NOSTALGIA – UM LARP SOBRE AS OUTRAS MEMÓRIAS” NO 8º SPA – SEMINÁRIO DE PESQUISAS EM ANDAMENTO – por Chris Alexsander Martins

Jogadores
Chris Alexsander Martins (USP)
Amanda Dias (UEM)
Axelly Souto (UEM)
Marilene Batista (UFMG)
Matheus (UFRN)
David
Vanderlei
Agnam

Tive a oportunidade de encaixar num espaço de oficina o larp “Nostalgia” criado por Luiz Prado no evento 8º SPA – Seminário de Pesquisas em Andamento, onde se encontram para compartilhar suas pesquisas na área de Artes Cênicas estudantes da graduação e da pós-graduação de todo o Brasil. O evento ocorreu entre os dias 3 e 7 de setembro de 2018 no Departamento de Artes Cênicas (ECA-USP).

Minha primeira surpresa foi ter solicitado apenas 6 vagas para as 3 horas de oficina e quando vi tinham 20 pessoas inscritas! Claro, umas vão, outras não, mas como lidar com um grupo tão grande num larp para acontecer para poucas pessoas? Dividi o larp em 3 sessões de aproximadamente uma hora, contando com o debrief. Acabou que tivemos sessões com 4, 4 e 3 jogadores.

Quando os participantes entravam, eu lhes explicava brevemente o que era larp. Destaquei o trecho escrito por Luiz Prado: “o larp possui elementos do teatro do improviso e da performance, mas diferente deles, é uma arte para ser vivida, não vista” (in Ouça no Volume Máximo). Percebi que isso criava disponibilidade para o evento, já que todos eram das artes da cena.

Um dia antes do larp eu preparei a sala e achei esse momento essencial: sozinho, fui na caixa preta onde ele iria acontecer na manhã seguinte, olhei aquele espaço e pensei como deixar ele aconchegante para que as pessoas conversem, como se fosse a sala da minha casa? Arrastei umas arquibancadas, estendi uns panos, coloquei algumas bolachinhas e água para comer, passei alguns fios e fitas por volta daquele núcleo de bancos que construí para que a energia dos jogadores estivesse circulando ali e não no restante daquela grande sala de ensaio.

Também propus ter música: sempre que estou com meus amigos conversando algo na casa de um ou outro, ou quando eu morava com eles, adorava viver com música de plano de fundo, qualquer que fosse. E ali tanto eu quanto outros jogadores fizeram estar presentes vários artistas da música brasileira (não lembro dos nomes que passaram por aquele Spotify, mas foram vários).

Indo direto ao debrief, porque ficar falando diretamente das memórias das pessoas que estavam ali seria um pouco desrespeitoso com o espaço que criamos, as instruções que eu dava eram “o que você trouxe da sua vida na memória que você contou?”, “o que particularmente tocou você da memória que o outro leu?” e “como é ter sua memória contada na boca de outra pessoa?” e coisas muito interessantes surgiram:

Um menino, diretor de teatro, durante sua memória começou a tomar uma postura e um ritmo muito específicos de cena e ele comentou isso. Pediu desculpas, porque não sabia se aquela era a proposta, mas que ele acabou tomando o estado de presença teatral, onde o corpo e os poros das mãos estão mais abertos aos outros para compartilhar o que se tem pra dizer. Então perguntei para ele se quando estava com outras pessoas ele assumia essa postura, como num bar com amigos, e ele disse que sim. É interessante perceber que muitos de nós do mundo do teatro levamos coisas que aprendemos para nossa vida: a gente anda mais atento, com o pé mais firme no chão, vê tudo na rua e nas propagandas como se fosse uma cena, tem mais equilíbrio e sabe ocupar espaço na rua que é uma beleza.

Alguns deles comentaram sobre a sinestesia da mesa: eles sentiam o gosto da bolacha, deitavam nas arquibancadas, escutavam de perto o que o outro tinha pra falar e enxergavam roupas penduradas e fios pelo espaço. Uma menina que trabalha com idosos sugeriu que o espaço fosse pensado com “elementos de casa de vó” em todos os âmbitos: bolachas de nata, um chá com aquelas xícaras brancas de porcelana, sofás mais velhos com forro e que dá para afundar neles, um tapete, luz fraca, cheiro de incenso ou hortelã, água de filtro de cerâmica. O ambiente confortável contribui muito para que cada lembrança seja colocada ali com segurança.

A fricção entre o que era real e o que era ficção se mostrou sempre borrada. Mas não interessava muito se o outro estava contando a minha história exatamente como ela aconteceu, nem se ele iria conseguir preencher as lacunas que o texto da minha memória possuía: não era um desafio. Era um compartilhamento de memórias! Era interessante ver cada um contando sua história e criando memórias contadas com muita verossimilhança.

Não se compartilhava exatamente a sua memória: percebemos uma estrutura de conexões entre as memórias dos papeis e as próprias memórias. O movimento ler as quatro ou cinco linhas, começar a contar e conectar com memórias minhas aquela história no meio do caminho dela. Enquanto narrávamos, foi comentado que trazíamos memórias nossas ou equivalências delas para essa memória que estávamos contando. Além disso, existia uma reverberação do que a pessoa anterior tinha lido, mesmo que fosse uma memória completamente diferente. Isso nos mostrou que aquelas Memórias estavam construídas coletivamente, não minhas memórias, mas nossas. “Cada um me completa”.

Em cada grupo de pessoas que jogou “Nostalgia” se formou uma cumplicidade, uma identidade de grupo. Memórias muito particulares de cada um foram colocadas em roda e na boca do outro, mas a cumplicidade pelo que estava sendo dito, escutar e depois dizer também a sua memória, foi muito interessante. Inclusive porque em cada grupo de pessoas, uma temática diferente por algum motivo que ainda não sei permeou todos as linhas dos papeis.

Aquele era um larp sobre uma necessidade humana: a necessidade de contar histórias da vida! Todo mundo já passou pela experiência de estar num ponto de ônibus, num ônibus de viagem, às vezes no avião, e uma pessoa mais velha puxar assunto e começar a falar sobre as suas memórias: sobre seus filhos, sobre sua juventude, sobre suas atividades e sobre como era aquele tempo. Não temos mais esse tempo, para parar essa vida corrida de dois empregos, de utilizar o tempo livre para otimizar suas habilidades e conhecimentos para seus trabalhos, de não ter mais como parar para fazer um bolo com alguém. Ali, o larp propunha a oportunidade de conversar e quando o grupo terminava cada sessão, era como se tivéssemos nos conhecido há um tempo, ou pelo menos criado algum laço afetivo com aqueles que compartilhamos memórias – nós não nos conhecíamos, mas talvez agora nos conheçamos em algum nível, com uma marca verdadeira da experiência compartilhada do larp.

Fiquei muito feliz com todas as trocas, ainda temos muita coisa a testar e a desvendar nesse mundo dos jogos e das artes participativas que estão em constante fricção. Agradeço a todos e a todas que estiveram presentes nesses dias do 8º Seminário de Pesquisa em Andamento, tanto na Comunicação Oral quanto no “Nostalgia”.

Esses dias escutei de uma professora algo como:

– Sim, é muito difícil viver hoje em dia! Tem tantos problemas que afetam diretamente o corpo: o ser macho, o corpo de culpa cristã, o trabalho que faz a gente endurecer nossos membros. Tudo isso e mais um pouco me mostram como é foda viver! Mas isso dá um gás para mim, sabendo que tenho que trabalhar muito a minha imaginação para me manter viva e não ser engolida de vez por todo esse sistema.

Nostalgia

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Nostalgia é de 2014. Ficou na gaveta para ser um dos larps inéditos da coletânea 6 larps e uma provocação. O livro ainda não saiu – alô! alguém quer publicar? – mas os seis jogos foram realizados em sequência, ao longo de 12 horas, na Virada Cultural de São Paulo.

Essa semana ele volta ao mundo como parte do SPA – Seminário de Pesquisas em Andamento, que acontece na Escola de Comunicações e Artes da USP. Chris Martins, que passou 2017 pesquisando as baldeações entre larp e trabalho do ator, vai apresentar a linguagem para o público. Nostalgia foi o larp escolhido por ele para a viagem.

Gritando para ver a luz do sol, quem vai impedir o banho da aurora?

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Nostalgia

Nostalgia é um jogo para partilharmos nossas memórias. Não quaisquer memórias, mas aquelas que nos trazem ao mesmo tempo a alegria de poder contar com elas e a tristeza de saber terem ficado para sempre no passado. O número recomendado de participantes é 3-5 e vocês precisarão de canetas e alguns pedaços de papel.

Ao redor de uma mesa – de preferência com algumas bebidas – cada pessoa escreve uma memória nostálgica, uma lembrança verídica do seu passado que até hoje deixa saudades. A natureza ou o momento da recordação podem ser de qualquer tipo: um romance adolescente, os domingos maravilhosos na casa dos avós, uma noite de conversa com alguém que mudou para sempre sua vida.

É fundamental que essas memórias realmente tragam sentimentos mistos de alegria e tristeza, por isso, levem o tempo necessário para escrevê-las. Tentem redigir três ou quatro linhas, oferecendo alguns detalhes mas não se alongando muito. Além disso, não se revelem no texto como autores das recordações: escrevam em gênero neutro e não citem pessoas ou lugares que possam identificá-los. Um exemplo seria:

Aquele feriado mágico na casa da praia, junto do pessoal da faculdade, quando bebemos, cantamos, dançamos, acordamos tarde e vivemos como se fôssemos uma família. Aquele feriado mágico no qual eu me apaixonei pela primeira vez.

Em seguida, dobrem e embaralhem os papéis, colocando-os no centro da mesa. Então, alguém sorteia um deles e conta a memória aos demais, como se fosse sua. A pessoa deve preencher as lacunas do texto e detalhar a recordação, buscando que os sentimentos evocados pareçam verdadeiros e nostálgicos. Não há problema se alguém sortear a própria lembrança: simplesmente narre a história completa, acrescentando as passagens omitidas.

Quando acabar, a pessoa entrega o papel para o participante a sua esquerda, que também deverá apresentar a mesma memória como sendo sua, completando as lacunas do texto com suas próprias ideias. Repitam essa ação até que todos tenham contado sua versão da história.

Feito isso, a segunda pessoa que narrou a recordação pega um novo papel, reiniciando o processo. Quando todos os participantes tiverem contado todas as memórias, o jogo acaba. Fiquem cinco minutos em silêncio, tomando suas bebidas e pensando nas histórias que surgiram. Depois, conversem sobre a experiência. Não revelem uns para os outros de quem era qual memória. Agora, todas pertencem a cada um de vocês.

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A versão pdf do larp pode ser baixada aqui.