“NOSTALGIA – um larp sobre as outras memórias” | Relato do 8º SPA – Seminário de Pesquisas em Andamento

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foto por Anna Carolina Piccinin Piro

 

Chris Alexsander Martins botou para acontecer o Nostalgia como uma das atividades do 8º SPA – Seminário de Pesquisas em Andamento, evento acadêmico da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Ele escreveu a respeito e segue abaixo o relato:

RELATO “NOSTALGIA – UM LARP SOBRE AS OUTRAS MEMÓRIAS” NO 8º SPA – SEMINÁRIO DE PESQUISAS EM ANDAMENTO – por Chris Alexsander Martins

Jogadores
Chris Alexsander Martins (USP)
Amanda Dias (UEM)
Axelly Souto (UEM)
Marilene Batista (UFMG)
Matheus (UFRN)
David
Vanderlei
Agnam

Tive a oportunidade de encaixar num espaço de oficina o larp “Nostalgia” criado por Luiz Prado no evento 8º SPA – Seminário de Pesquisas em Andamento, onde se encontram para compartilhar suas pesquisas na área de Artes Cênicas estudantes da graduação e da pós-graduação de todo o Brasil. O evento ocorreu entre os dias 3 e 7 de setembro de 2018 no Departamento de Artes Cênicas (ECA-USP).

Minha primeira surpresa foi ter solicitado apenas 6 vagas para as 3 horas de oficina e quando vi tinham 20 pessoas inscritas! Claro, umas vão, outras não, mas como lidar com um grupo tão grande num larp para acontecer para poucas pessoas? Dividi o larp em 3 sessões de aproximadamente uma hora, contando com o debrief. Acabou que tivemos sessões com 4, 4 e 3 jogadores.

Quando os participantes entravam, eu lhes explicava brevemente o que era larp. Destaquei o trecho escrito por Luiz Prado: “o larp possui elementos do teatro do improviso e da performance, mas diferente deles, é uma arte para ser vivida, não vista” (in Ouça no Volume Máximo). Percebi que isso criava disponibilidade para o evento, já que todos eram das artes da cena.

Um dia antes do larp eu preparei a sala e achei esse momento essencial: sozinho, fui na caixa preta onde ele iria acontecer na manhã seguinte, olhei aquele espaço e pensei como deixar ele aconchegante para que as pessoas conversem, como se fosse a sala da minha casa? Arrastei umas arquibancadas, estendi uns panos, coloquei algumas bolachinhas e água para comer, passei alguns fios e fitas por volta daquele núcleo de bancos que construí para que a energia dos jogadores estivesse circulando ali e não no restante daquela grande sala de ensaio.

Também propus ter música: sempre que estou com meus amigos conversando algo na casa de um ou outro, ou quando eu morava com eles, adorava viver com música de plano de fundo, qualquer que fosse. E ali tanto eu quanto outros jogadores fizeram estar presentes vários artistas da música brasileira (não lembro dos nomes que passaram por aquele Spotify, mas foram vários).

Indo direto ao debrief, porque ficar falando diretamente das memórias das pessoas que estavam ali seria um pouco desrespeitoso com o espaço que criamos, as instruções que eu dava eram “o que você trouxe da sua vida na memória que você contou?”, “o que particularmente tocou você da memória que o outro leu?” e “como é ter sua memória contada na boca de outra pessoa?” e coisas muito interessantes surgiram:

Um menino, diretor de teatro, durante sua memória começou a tomar uma postura e um ritmo muito específicos de cena e ele comentou isso. Pediu desculpas, porque não sabia se aquela era a proposta, mas que ele acabou tomando o estado de presença teatral, onde o corpo e os poros das mãos estão mais abertos aos outros para compartilhar o que se tem pra dizer. Então perguntei para ele se quando estava com outras pessoas ele assumia essa postura, como num bar com amigos, e ele disse que sim. É interessante perceber que muitos de nós do mundo do teatro levamos coisas que aprendemos para nossa vida: a gente anda mais atento, com o pé mais firme no chão, vê tudo na rua e nas propagandas como se fosse uma cena, tem mais equilíbrio e sabe ocupar espaço na rua que é uma beleza.

Alguns deles comentaram sobre a sinestesia da mesa: eles sentiam o gosto da bolacha, deitavam nas arquibancadas, escutavam de perto o que o outro tinha pra falar e enxergavam roupas penduradas e fios pelo espaço. Uma menina que trabalha com idosos sugeriu que o espaço fosse pensado com “elementos de casa de vó” em todos os âmbitos: bolachas de nata, um chá com aquelas xícaras brancas de porcelana, sofás mais velhos com forro e que dá para afundar neles, um tapete, luz fraca, cheiro de incenso ou hortelã, água de filtro de cerâmica. O ambiente confortável contribui muito para que cada lembrança seja colocada ali com segurança.

A fricção entre o que era real e o que era ficção se mostrou sempre borrada. Mas não interessava muito se o outro estava contando a minha história exatamente como ela aconteceu, nem se ele iria conseguir preencher as lacunas que o texto da minha memória possuía: não era um desafio. Era um compartilhamento de memórias! Era interessante ver cada um contando sua história e criando memórias contadas com muita verossimilhança.

Não se compartilhava exatamente a sua memória: percebemos uma estrutura de conexões entre as memórias dos papeis e as próprias memórias. O movimento ler as quatro ou cinco linhas, começar a contar e conectar com memórias minhas aquela história no meio do caminho dela. Enquanto narrávamos, foi comentado que trazíamos memórias nossas ou equivalências delas para essa memória que estávamos contando. Além disso, existia uma reverberação do que a pessoa anterior tinha lido, mesmo que fosse uma memória completamente diferente. Isso nos mostrou que aquelas Memórias estavam construídas coletivamente, não minhas memórias, mas nossas. “Cada um me completa”.

Em cada grupo de pessoas que jogou “Nostalgia” se formou uma cumplicidade, uma identidade de grupo. Memórias muito particulares de cada um foram colocadas em roda e na boca do outro, mas a cumplicidade pelo que estava sendo dito, escutar e depois dizer também a sua memória, foi muito interessante. Inclusive porque em cada grupo de pessoas, uma temática diferente por algum motivo que ainda não sei permeou todos as linhas dos papeis.

Aquele era um larp sobre uma necessidade humana: a necessidade de contar histórias da vida! Todo mundo já passou pela experiência de estar num ponto de ônibus, num ônibus de viagem, às vezes no avião, e uma pessoa mais velha puxar assunto e começar a falar sobre as suas memórias: sobre seus filhos, sobre sua juventude, sobre suas atividades e sobre como era aquele tempo. Não temos mais esse tempo, para parar essa vida corrida de dois empregos, de utilizar o tempo livre para otimizar suas habilidades e conhecimentos para seus trabalhos, de não ter mais como parar para fazer um bolo com alguém. Ali, o larp propunha a oportunidade de conversar e quando o grupo terminava cada sessão, era como se tivéssemos nos conhecido há um tempo, ou pelo menos criado algum laço afetivo com aqueles que compartilhamos memórias – nós não nos conhecíamos, mas talvez agora nos conheçamos em algum nível, com uma marca verdadeira da experiência compartilhada do larp.

Fiquei muito feliz com todas as trocas, ainda temos muita coisa a testar e a desvendar nesse mundo dos jogos e das artes participativas que estão em constante fricção. Agradeço a todos e a todas que estiveram presentes nesses dias do 8º Seminário de Pesquisa em Andamento, tanto na Comunicação Oral quanto no “Nostalgia”.

Esses dias escutei de uma professora algo como:

– Sim, é muito difícil viver hoje em dia! Tem tantos problemas que afetam diretamente o corpo: o ser macho, o corpo de culpa cristã, o trabalho que faz a gente endurecer nossos membros. Tudo isso e mais um pouco me mostram como é foda viver! Mas isso dá um gás para mim, sabendo que tenho que trabalhar muito a minha imaginação para me manter viva e não ser engolida de vez por todo esse sistema.

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