O Fim – Residência Leste [22.9.2016]

14391001_533066940231817_5761551188964828821_n

Dada a correria que tomou conta da existência nos dias que antecederam Antares, um relato tardio. O larp aconteceu ontem. Estão todos bem e vivos, apesar da ficção. Retomo algumas impressões, agora mais enevoadas, do penúltimo dia da residência, o último dia da preparação. Falta frescor, mas acho que a sensibilidade das impressões ajuda. Vamos lá que a estrada continua.

Na quinta-feira som e luz. Grata surpresa chegar no Sesc e ter a sala onde o larp aconteceria disponível. Passamos a tarde fazendo experimentações com cenografia e testando iluminação. Foi nesse momento que se definiu o espaço para Antares, com aquela magia das soluções que surgem depois de muito trabalho na cabeça e parecem estalos momentâneos. As cadeiras no espaço, que não poderiam ser retiradas. Primeiro um problema, depois uma referência gritante de Kantor e um marcador bem satisfatório da área de jogo. Não queria usar a sala toda, mas demarcar um espaço de atuação para os jogadores, na busca por uma atenção menos dispersa com os elementos contemporâneos do espaço que não poderiam ser eliminados (cortinas, projetores, portas). As cadeiras não só criaram o círculo, mas suportaram as luzes do larp. Próximo parágrafo.

Na quinta-feira uma tarde ensolarada. Percebemos que seria inútil iluminar o espaço. As luzes não entrariam nessa função. Elas se tornariam um elemento cenográfico também. O ETA dispunha de uma série de lâmpadas led que poderiam criar caminhos, pontos focais… ou estrelas no firmamento. Testamos pequenas luzes azuis nas cadeiras e o resultado foi bonito, significativo e potente.

Levamos para o espaço grandes pedaços de madeira que chamaram atenção pelo tamanho e peso. A manipulação das peças me pareceu interessante para os corpos e havia certa estranheza nas escalas demarcadas pelas madeiras. Entraram. Seriam o elemento indefinido para criar o cemitério: destroços, restos mortais de gigantes, lembranças ampliadas dos queridos que passaram? Deixar em aberto sempre foi a direção a seguir. Assim foi feito.

Essa configuração mostrou que a ideia de um tecido cruzando o espaço para ser a estrela Antares se aproximando não se realizaria. Não havia tempo, não havia teste, não havia soluções eficientes e ágeis para suportar o peso dos tecidos. As luzes azuis no firmamento de cadeiras explodiu a ideia nova. Durante todo o larp, substituir as lâmpadas azuis por vermelhas, pontuar a chegada inexorável de Antares. E mais, empurrar as cadeiras para o centro a cada troca de lâmpadas, reduzindo o espaço dos jogadores. Mais um quê de Kantor: a presença em cena do organizador, interferindo no jogo entre os participantes, um elemento estranho à ficção. Ready-made.

O espaço apareceu, enfim. Tínhamos o círculo de jogo, Antares em expansão e o cemitério. Sabíamos como utilizar as luzes. Voltamos ao ETA e nos jogamos no som.

Apresentei alguns áudios de tambores japoneses, na perspectiva de diálogo com o butô. Surgiu Morton Feldman e deixamos alguns trabalhos rolarem. Rothko Chapel me chamou atenção logo de cara. Atmosfera e duração casavam com minhas intenções. Dias depois, conhecendo a história da composição, da capela e do artista que a nomeia, se confirmaria dentro do larp.

Fim da parte 1 do final.

*relato escrito ao som de Milagres dos Peixes, Milton Nascimento.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s