Corpo, moda e identidade – Residência Leste [18.9.2016]

Dia de vestir os corpos. Dia de criar os corpos. Em Antares, os corpos adquirem posturas e movimentos não convencionais, influenciados por Kazuo Ohno e o butô. A ideia é que a movimentação traduza as disposições mentais e emocionais dos personagens e sirva como vocabulário para a comunicação. Não há verbo em Antares: as relações acontecem entre os corpos, na leitura dos gestos e na polissemia da dança.

Uma parte da criação desses corpos novos está no figurino dos personagens. Mais do que cobrir quem usa, a roupa entra em Antares propondo novas posturas, sugerindo movimentos e trazendo leituras para quem a observa. São sete personagens, seis jogadores. Momentos diferentes da vida: a velhice, a idade madura, a juventude, a adolescência, a infância. Cada um deles propõe um corpo diferente, um jogo novo com o espaço, os objetos e o outro.

Discutimos bastante isso. Materiais para trazer sensações, impacto visual, desnaturalizar o movimento. Texturas novas para o caminhar, pesos para desacelerar a ação, restrições com cordas. Um personagem com braços amputados traz cordas para imobilizar os pulsos do jogador junto aos ombros. Um personagem idoso sente o peso da idade com bolas de gude nos pés e nas mãos. A mulher de meia idade que sente a falta do marido morto arrasta o cadáver consigo. Uma criança destoa desse corpos com roupas leves e movimentos fluidos.

A base para os figurinos em Antares vem das referências das space operas e mundos espaciais. As obras de Moebius, Saga, Star Wars, Jodorowsky. Gorros, ponchos, saias, mochilas e outras peças do imaginário viajante, refugiado e retirante. Esse é o ponto de partida para levar o jogador a Antares. A segunda camada são os objetos e peças que criam novos corpos. Esses não são realistas ou ilusionistas. As bolas de gude nos pés do velho não existem na ficção de Antares: são elementos extra-diegéticos para gerar uma experiência real que dialoga com a experiência da ficção. Os figurinos não precisam jamais ser realistas aqui. Eles devem, concordando com as ideias de Kantor, serem por si só. A criança que usa saia para expressar leveza usa realmente a saia, sendo isso coerente ou não. E ela não deve ser ignorada. Sua existência com cor movimento textura faz parte da experiência. Assim como o saco de arroz carregado pela mulher que sente falta do marido. Em Antares nada se finge ou se ignora. Colagem, ready made.

Próxima etapa do trabalho é finalizar o conjunto para cada personagem, sempre nessa relação camada refugiados + camada desnaturalização do corpo. Depois, sair às compras. Menos de uma semana, momento de fazer nascer.

*corpo, moda e identidade são as palavras-chave de um trabalho realizado em 2015 na SP Escola de Teatro. Fazendo todo sentido nesse contexto, faço-o ready made.

**relato escrito ao som de Jack Johnson no Kokua Festival, Havaí, 2008.

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