Buscando o sublime – Residência Leste [11.9.2016]

002_kazuo_ono_theredlist.jpg

Butô.

Butô. Fazer os corpos dançarem em busca da pergunta que se sabe não ter resposta. Dançar no limite. Deixar o corpo falar dos sentimentos mais profundos, da angústia, da memória, da morte, dos ciclos da vida. Para Antares, o corpo é quem está no centro do diálogo. A palavra fica de fora. São os gestos, o corpo desenhado no espaço, que irão estabelecer as relações da família prestes a desaparecer.

Quero aprofundar a pesquisa do corpo no larp. Criar experiências nas quais o corpo seja desatrofiado. Morte Branca, de Nina Runa Essendrop e Simon Steen Hansen, foi a primeira experiência com o Boi Voador. Depois vieram Uma tarde no museu e monstros. A proposta agora é ir além, procurar um vocabulário dos gestos, estabelecer um diálogo que prescinda da palavra. Trazer a representação das mentes e do verbo para a visceralidade do corpo. Por isso, a visceralidade e urgência do butô. Por isso, a imagem soco na cara do corpo decaindo, do embate entre vida e morte com delicadeza de Kazuo Ohno.

O butô surge no Japão pós-guerra, fim dos anos 50. O país procura se reconstruir e os artistas buscam novas formas de expressão, que ultrapassem a tradição, agora posta em xeque pela guerra, e não sejam apenas imitação do ocidente. Tatsumi Hijikata cria o ankoku butô, a dança das trevas. Morte, homossexualidade, decadência são os temas tabu postos no corpo.

Kazuo Ohno está desde o início com Hijikata, mas leva sua dança por outros caminhos. A escuridão perde espaço para o sublime – agradecimentos à Erika Bundzius por reforçar o termo na minha cabeça =) – há um carinho, aliado à melancolia da memória em seus movimentos. O corpo que se enraíza no chão continua, o tensionamento de articulações, mãos, dedos, pés e costas se mantem incômodo ao olhar. Há uma nova fluidez, contudo, o movimento se liberta e entra no jogo entre tensão e leveza. Aí entramos em Antares.

A consciência da morte nos personagens não está na chave do desespero. Saber que só restam algumas horas leva à potência da vida, à potência das ações que serão realizadas pela última vez. Cada gesto, cada relação, cada olhar adquire força como jamais teve e jamais terá. É uma homenagem à vida em seus aspectos mais individuais e singelos. O toque de carinho que se banalizou volta como expressão máxima de afeto. O toque no solo é o contato íntimo com o mundo. Nunca mais os pés encontrarão esse chão que nunca foi percebido como prolongamento do eu. Essas brisas. Antares é uma grande brisa do estar vivo. Do corpo percebendo estar vivo. Da comunicação que criamos com esses corpos em máxima vida.

O grotesco unido ao delicado em Kazuo Ohno traduz no corpo as sensações propostas na estrutura de Antares. E como fazer isso, Luiz Prado?

Um passo na investigação foram os exercícios realizados neste domingo com os participantes do encontro. Depois de uma introdução ao butô e a Kazuo Ohno, com partilha das pesquisas e exibição de vídeos, levantamos os corpos para investigar como nossos movimentos podem ser lidos. Estudamos o movimento lento, a criação de imagens objetivas e subjetivas e a tentativa de diálogo. Foi um esboço. O tempo curto nos tomou a possibilidade de uma investigação mais profunda. Contudo, as leituras se mostraram possíveis. Antares se mostrou possível. A polissemia surgiu com força e os corpos falaram.

Em termos práticos, o encontro deste domingo reforçou a certeza da necessidade de criar uma preparação para os corpos antes do larp. Aprender um novo idioma para entrar num mundo novo. Mesmo que por alguns poucos minutos. E morrer nesse mundo para voltar ao nosso com alguma coisa. Alguma coisa.

*relato escrito ao som de On and on, Jack Johnson.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s