O Larp da Morte – Residência Leste [8.9.2016]

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Último dia em Antares é a história de uma família de refugiados vivendo seus momentos finais num planeta na putaqueopariu do universo rodando em torno da estrela Antares. Os personagens sabem que é o último dia, os jogadores sabem que ao final do larp todos eles estarão mortos. Não há módulos de fuga para consertar, magias para barrar meteoros, negociações sagazes contra alienígenas malvados ou rituais ero-catárticos para deuses do abismo. Último dia em Antares é um larp sobre a consciência da morte e o que fazemos diante disso. É um larp sobre o que fazemos com o que resta da vida. É um larp sobre a vida, enfim.

E é um larp apunhalado por Tadeusz Kantor. Encenador e cenógrafo, artista plástico, performer, cara do happening. Kantor foi um vanguardista declarado, que sempre tentou levar seus trabalhos aos picos mais radicais da arte, chutando boa parte do que seus contemporâneos faziam e buscando chegar no limite. Defendeu um teatro autônomo, obra de arte por si mesma e não apenas tradução do texto. Defendeu os objetos relegados da existência como os artefatos mais poderosos para se entender a realidade. Disse não à obra de arte dos museus e galerias, aos trabalhos homogêneos e fechados. Defendeu a colagem, a montagem, o acaso, a intuição. Cresceu o pensamento até se contradizer, sem medo. Criou espetáculos que desafiaram as convenções do teatro.

Depois de passar semanas me entupindo da loucura da poética de Kantor, a ideia era trazer alguns de seus pensamentos para a criação de Antares e, especificamente neste dia 8, socializá-los com o público. Minha intenção nunca foi levar ao larp simplesmente as máquinas construídas pelo encenador, ou traduzir suas obras. O grande rolê era entender como sua poética poderia atravessar Antares e levar a linguagem para um lugar que eu nunca havia pisado antes. Para isso, foi preciso entender os manifestos de Kantor, como eles diziam respeito e se mostravam em suas obras e, a partir daí, pensar o larp a sua luz.

Condensar quase 50 anos de pensamento é ridículo e, por isso, decidi deixar as reflexões mais fortes ditarem suas prevalências. E, nesse sentido, as ideias contidas no manifesto O Teatro da Morte – materializado no espetáculo A Classe Morta, de 1975 – com certeza vieram explodir no coração de Antares.

Fazendo um resumo bem sem vergonha, o Teatro da Morte fala do uso de manequins – ou bonecos de cera – em cena, como uma manifestação da morte, da ausência de vida. Tanto para o público quanto para os atores. Esses manequins, em sua aparência humana desprovida de movimento e destino, nos lembram de maneira brutal da morte e, por isso mesmo, conseguem falar de maneira potente sobre a vida. Kantor traça uma analogia entre os manequins e os atores: ambos do lado de lá de uma linha invisível em relação ao público, ambos apartados de nós e, por isso mesmo, capazes de chamar atenção para nossa própria condição. Em suma, é a ausência que nos fala da presença. Em suma, é o golpe que nos fala da democracia.

Ora -ora é uma expressão duca de erudita para começar um parágrafo =P -, Antares fala exatamente disso aí. Na certeza da morte, no esvaziamento de qualquer possibilidade de lutar contra ela, temos a reafirmação da vida, a potencialização das ações últimas das personagens. Nos momentos finais, cada gesto, palavra ou relação tem um destaque como jamais outro, tem uma existência repuxada do mar do cotidiano, passa a existir com uma força que nunca teve – justamente porque nunca mais terá. Essa retirada do ciclo lógico e utilitário da vida é exatamente outro ponto caro ao trabalho de Kantor, que buscou ao longo de vários projetos trabalhar com a realidade pronta – o ready made – para destacar a existência em si dos objetos e ações. A ideia é perceber as coisas como elas são, as ações como elas são, as relações por si mesmas, afastadas de suas utilidades ou consequências. E afastadas também de suas funções ilusionistas. Para Kantor, a obra de arte não deve imitar o real. Deve ser o real destacado dentro do próprio real. Isso vale para o teatro, para as artes plásticas… e para o larp?

Tradicionalmente mímese – ou desejo louco de mímese – o larp chega em Antares nessa procura por uma nova realidade autônoma. A busca não é imitar as relações da vida – mesmo que estejamos num planeta longínquo – mas fazer da experiência do larp algo autônomo, com estruturas que dizem respeito apenas a ele. Num exemplo, Kantor detestaria Café Amargo, com sua busca louca por ser imitação da realidade. Talvez se um macaco se despedisse de um envelope, sem motivos para ir embora, fosse mais perto dos desejos do velho polonês.

Enrascada, Prado? Desafio.

Domingo a gente traz o Ohno para brincar com a gente.

*relato escrito ao som de Recipe for Hate, Bad Religion.

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