Longe das bombas e do terror – Residência Leste [4.9.2016]

No meio da cidade o povo se organiza, se junta, ergue as bandeiras e arranha a garganta. No mesmo meio, só que não, outro grupo sente o coturno envolver os pés, os cacetetes reforçarem a masculinidade e a ideologia destroçar o pensamento. Logo mais, bombas vão cortar a paisagem, tênis vão pisotear as avenidas e os jornais vão dar notas de rodapé. Esses são os dias.

Na ponta da cidade, um larp é gestado, ao mesmo tempo. Antares é a fuga que se pretende libertação. Criação artística como arsenal para a cabeça na luta contra a ideologia. Pretensão, ingenuidade ou idealismo. Caminho da vanguarda, revolução multilatitudinal, expansão das frentes e preparação dos quadros. O importante é fazer alguma coisa. É?

O encontro desse domingo teve como referência a apresentação e discusssão de materiais ligados às space operas e obras nas quais mundos espaciais ou distópicos surgem com força. Levei HQs e filmes e recebi sugestões de artistas plásticos e video games. Bem massa.

As camadas de referências mais básicas para Antares são as space operas, gênero da ficção que trata de viagens espaciais, mundos alienígenas, ação, romance e aventura, numa chave pouco calcada no realismo e completamente inspirada em histórias de fantasia, pirataria e velho oeste. A space opera mais famosa desses nossos tempinhos é Star Wars, com suas princesas, heróis e vilões, naves incríveis que cruzam o espaço em segundos, intrigas palacianas e batalhas épicas. Essa é a pegada. Mas o rolê começa de antes, lá na literatura do começo do século 20, em obras como A Princess of Mars, do E. R. Burroughs.

Para Antares, as space operas servem como referência de ambientação. O foco não são as tramas aventurescas, mas as paisagens exóticas e personagens wow. Em Star Wars, por exemplo, a paisagem de Tatooine, onde Luke Skywalker cresceu e inicia seu rolê, entra forte para criar o imaginário do planeta onde a família refugiada se encontra. Uma amplidão desértica, com habitações isoladas mantidas por fazendeiros em trajes que flutuam do roupão da sua tia rica para uns quimonos ordinários.

Nessa linha, Saga, do Brian K. Vaughan e da Fiona Staples traz sugestões muito próximas. As roupas que mesclam influências orientais e contemporâneas (principalmente dos personagens vindos de Grinalda), estão bem no foco de exploração para caracterizar os personagens de Antares. Junto delas, as sugestões muito inventivas de personagens alienígenas vêm alimentar as possibilidades de criação dos atores dessa trama escatológica.

Deixando um pouco as space operas de lado, chega o trabalho criativo e surrealista do Moebius, com seus alienígenas de design fálicos – como Arzach – e suas paisagens amplas, desoladoras e angustiantes. As ideias oníricas de muitos de seus trabalhos também ajudam a levar os contornos de Antares até um campo menos lógico e fechado, servindo para pensar em desvios mais doidões e menos engessados.

A Montanha Sagrada e El Topo, do Jodorowsky, também vêm nessa pegada. As imagens surrealistas e altamente simbólicas entram na chave da representação desnaturalizada que pretendo no larp –  e junto das influências do Kantor e do Ohno vão resultar em sabe-se lá o quê. Os olhares enigmáticos e ações altamente performativas dos personagens de Jodorowsky casam muito com minhas ideias para a família refugiada.

Trouxe ainda para o encontro desse domingo algumas referências mais incidentais, que servem de reforço às acima citadas. O Livro de Eli, por exemplo, apresenta paisagens devastadas, figurinos pesados e tons de bege e marrom na palheta de cores, que me interessa investigar. O Vidas Secas (tanto o livro do Graciliano como a adaptação para cinema do Nelson Pereira dos Santos) entra como uma referência bem legal para o climão entre os personagens, com suas falas econômicas e pontuais.

Outra dessas referências de orelhada é o inusitado Acquaria, filme nacional estrelado por Sandy & Junior. Vamos deixar o preconceito de lado e ignorar o enredo nulo do filme. Se olharmos o trabalho de cenografia e figurino encontramos uma caracterização bem interessante de um mundo pós-apocalíptico. Temos lá todos os elementos clássicos da parada: areia, muita areia, vastidão desabitada, roupas em tons bege, cinza e marrom, óculos de aviador, couro, cacarecos cool que parecem saídos de Mad Max. E mesmo o roteiro sem ação é interessante para se pensar uma proposta menos corre corre e mais contemplativa para o desenvolvimento do larp.

Essas foram as cartas que levei para o jogo. No truco, recebi outras referências interessantíssimas. Conheci uma animação do Arzach bem maneira e me lembraram de dar uma olhada no Journey, um jogo lindo com paisagens bem na pegada que Antares está chamando (Shadow of the Colossus trabalha com a mesma vereda, mas deixa a areia de lado para evocar ruínas de tempos remotos que são bem instigantes para se criar estruturas de cenário).

Pensando na materialização desse lugar em Antares vários nomes das artes plásticas surgiram na conversa. Os retirantes de Portinari vieram de pronto e, inclusive, um paralelo com o butô gritou em nossos olhos. Os trabalhos do Tunga, Claire Morgan e Ernesto Neto também foram citados para se pensar na criação da estrela Antares e os outros elementos do espaço no qual os jogadores vão esperar o fim.

Foi um encontro muito produtivo, no balanço das coisas. Não tivemos o mesmo público do primeiro (domingo, tempo esquisito, distância e talvez o lance todo do usurpador) mas a qualidade da troca me deixou muito animado para as próximas datas. Na quinta-feira, é hora de pirar o cabeção no Kantor.

*relato escrito ao som de Close to the Edge, Yes, acompanhado do querido café e de uma sessão de espirros que está me levando para outro planeta. Acho que preciso dar um pouco de atenção para a saúde.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s