Dias em Antares – Residência Leste [1.9.2016]

Ontem começou a Residência Leste no Sesc Itaquera. A ideia é criar um larp em diálogo com o público – processo aberto e troca de experiências: levar as referências, partilhar conhecimentos, mostrar o avanço do processo. É um treco inédito no meu trabalho e, por conta disso, cheio de expectativas. Claro, a ambição é grande e a vontade de dar um passo além na estrada do larp me leva a articular um monte de coisas que não cabem direito em 24 horas diárias de vida. Vamos levando.

Depois de passar umas semanas estudando Kantor como se não houvesse amanhã, separei um tempo para planejar o primeiro encontro. A ideia para esse dia foi de apresentar a linguagem do larp e situar o público no trabalho da residência. O barato é que sempre fico imaginando as pessoas querendo conhecer larp e encontrando só um processo esquisito em andamento. Uma coisa é “ok, bora encher a cara de café amargo e entender o que é larp”, outra é ficar recepcionando as pessoas com um caderninho cheio de notas, rascunhos e esboços. Esse primeiro dia daria o tom da coisa toda.

Junto de imagens, vídeos e roteiros para larp separei o acervo que alicerça a pesquisa. Histórias em quadrinhos e vídeos sobre ficção espacial, mundos alienígenas e futuros distópicos, reunidos com obras de referência do Tadeusz Kantor e do Kazuo Ohno. Levei também o livro vermelho-fetiche com o registro das pesquisas.

As pessoas foram chegando aos poucos e no início as conversas foram individuais. Exibição do acervo de roteiros – boa parte deles oriunda do Ciclo de iniciação ao larp realizado em maio no mesmo Sesc Itaquera – e conversas sobre os materiais de pesquisa. A galera curtiu bastante os quadrinhos do Moebius e o Saga, do Brian K. Vaughan e da Fiona Staples. Cada vez mais, dia a dia, a vozinha gritante berra mais alto que imagem é tudo. É mesmo?

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o arsenal para se viver em Antares (imagem por Luiz Falcão)

 

Daí parti para uma apresentação lato sensu do meu trabalho, exibindo várias imagens de produções  com a Confraria das Ideias, o Boi Voador e o Nplarp, junto de algumas aventuras solo. Para mostrar a diversidade de temas e produção, levei coisas desde o recente Clubd e o épico Cosmocaos até o famigerado monstros, passando pelo Ouça no Volume Máximo, Café Amargo e Uma tarde no museu. No meio dessa falação mais público foi chegando, incluindo uma galera do Juventudes, projeto de teatro lá do Sesc Itaquera. Daí a gente abre um sorrisão quando vê esse público todo.

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apresentando larp para o povo, com O Jogo do Bicho em destaque na projeção (imagem por Luiz Falcão)

 

Pausa para a água (meu estimado café só viria no final do encontro, dada a correria da função) e voltamos para sentir larp na prática. Com um grupo de 10 participantes, acertamos de começar do começo e resgatamos os atemporais e iniciáticos Três de Mim e Boa Noite, Queridinhas, ambos do norueguês Matthijs Holter. O grupo de adolescentes e jovens (hoje em dia é difícil não ser jovem, com os alargamentos da faixa etária propostos pela Unicef e pelo modo de vida ocidental) entrou nas experiências de modo leve e bem humorado. Tínhamos um espaço amplo, não-isolado e isso contribuiu para o clima dos dois larps. Isso não significou contudo, que as experiências não foram levadas à sério. Nossa escritora-assassina levou um bom tempo argumentando contra algumas de suas obras às portas da morte, em situações bem instigantes.

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acontecendo um Boa Noite, Queridinhas – uma destas pessoas não estava jogando, você consegue advinhar quem? (imagem por Luiz Falcão)

 

Com o tempo escorrendo pelos dedos – como sempre acontece quando entramos na seara do larp – tivemos de encerrar os trabalhos do dia nesse ponto. Rolou um rápido fechamento, com convites para os próximos encontros, sucinto relato das próximas etapas, rememorações das datas etc. Foi massa. Ver o larp acontecer e ser semeado sempre é massa. Depois, finalmente consegui tomar meu café e daí gravamos o vídeo que está disponível lá no meu perfil do facebook.

Larp é da hora. Você abre um buraco na realidade e vai para outro pico. Pode manter um pé de cada lado da fenda, ficar só com a pontinha no mundo do jogo ou no lado de cá, você escolhe. Mas faz isso de mãos dadas com a galera. E quando volta para o cotidiano – não importa o quanto tenha entrado para o outro lado – sempre carrega um pouco dos ventos e da poeira da imaginação. Ah, o que a escrita direta e doses cavalares de café não fazem pela analogia, a metáfora e a cafonice!

No domingo tem mais. A ideia é mandar ver na apresentação/discussão sobre mundos alienígenas e distopias, focando no cinema e nos quadrinhos, dando uma volta pela literatura e tevê também. Tá ficando da hora. Como dizem os Novos Baianos, não é uma estrada, é uma viagem.

*relato escrito ao gosto de café e ao som de Animals, Pink Floyd =)

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