Uma resenha sobre monstros, por Luiz Falcão

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O companheiro Luiz Falcão publicou esta semana no facebook uma resenha sobre sua participação em monstros, larp realizado no Ciclo de iniciação ao larp no SESC Ipiranga. Com permissão do autor, reproduzo aqui a íntegra do texto.

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Sexta-feira passada eu estive no Espaço de Tecnologias e Artes do SESC Ipiranga para o larp Monstros, de Luiz Prado.

Monstros é um larp físico*, inaugura, possivelmente, nova fase de pesquisa do autor. É resultado, claro, das vivências com o Boi Voador e o NpLarp, da qual destaco com carinho especial a realização de White Death, de Nina Runa Essendrop e Simon Steen Hansen no Laboratório de Jogos 2014 – e (um pouco menos) O Jogo do Bicho. Além disso, concentra o aprendizado das pesquisas anteriores de Prado (como Café Amargo, Ouça no Volume Máximo, Uma Tarde no Museu). Mas não é só. Destaco a influência que o jogo tem das pesquisas de Augusto Boal, muito claras nos exercícios de preparação, mas sensíveis também, ao meu ver, no larp em si.

Foi difícil, no momento que estou passando, me entregar a proposta da experiência – materializar, no seu corpo, seus medos, seus monstros, aquilo te fere, aquilo em você que fere os outros. Mas macaco velho que sou nesse rolê, me dispus a levar isso tão longe quanto eu conseguisse.

Foi também a oportunidade de, pela primeira vez jogando, usar as tais das safewords (palavras de segurança) do larp nórdico (e do rolê BDSM?). Verde (aumente a intensidade), Amarelo (opa, opa… para com isso), Vermelho (para tudo!) – em um larp sem acordos prévios do que podíamos ou não fazer em relação ao outro. Isso por si só é uma experiência bastante complexa, desde se acostumar com o vocabulário dentro do jogo – quando é usado com você e para você mesmo usar com os outros – até a dúvida “será que fulano quer ir além? mas… calma aí… e eu? será que eu quero ir além?”.

Para além de tudo isso, monstros se difere muito de White Death, por exemplo, pela determinação horizontal X vertical. Em White Death, o design do jogo te cerca por todos os lados. Nina e Simon tinham em mente de forma bastante clara e pragmática qual era a experiência que queriam proporcionar aos jogadores de seu larp. Luiz Prado, sendo coerente com sua trajetória, não. Os estímulos que ele coloca no jogo (as descrições, uma “ficha de personagem”, os exercícios preparatórios, a arte de divulgação…) são muito potentes – mas por si só não determinam a experiência do jogador, não o enclausuram dentro de uma possibilidade definida de jogo. Monstros tem um roteiro em 3 atos, que já determinam o que vai acontecer, mas é quase impossível defender uma leitura do jogo como um railroad (um jogo “de cartas marcadas”, onde as possibilidades de ação dos jogadores estão completamente inscritas dentro do design do jogo).

A liberdade e responsabilização dos jogadores é uma marca dos larps do autor. A radicalização dessa horizontalidade, a ideia de arte participativa, é gritante na experiência. Todos são criadores de estímulos, todos são definidores de como é esse jogo, de como ele será jogado. Duas seções de Monstros podem ser absolutamente diferentes – absolutamente mesmo. Tudo depende de como os jogadores interpretarem os estímulos colocados pelo jogo, de como e quanto eles se dispuserem a viver os convites feitos pelo autor, de como eles resolverem dar conta dos aspectos nebulosos das enunciações. Não se tratam se respostas automáticas, dadas mais pelas entrelinhas do discurso organizador da experiência do que pelos próprios jogadores. Aqui trata-se dos próprios jogadores mesmo, sem hipocrisia, sem exagero retórico. É isso mesmo, preto no branco: o jogador coautor da experiência… não preenchedor das lacunas, não interator com conteúdos já definidos… coautor.

* qual larp não é físico? O que quero dizer com isso é que a dimensão do corpo está em evidência nesse larp em relação a outras experiências, mais racionais, cerebrais, centradas na fala. Aqui, os personagens são antes criados com os corpos, e essa é a principal maneira como eles se relacionam também: fisicamente.

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Comentários sobre a experiência de viver um larp são fundamentais para a consolidação da linguagem. Espero que a iniciativa do Falcão estimule mais pessoas a consolidarem na palavra escrita suas vivências. =)

Para acessar a publicação original clique aqui.

Imagem por Paulo Renault.

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