Secou a Terra do Toró! – brincando com larp para crianças

Capa

O Corneteiro e o Pai Coruja indicam para as crianças onde uma das corujinhas foi vista pela última vez. Imagem por Paulo Renault.

Em janeiro, a Confraria das Ideias fez acontecer Secou a Terra do Toró!, atividade com elementos de larp voltada para o público infantil. Materializado no Sesc Pompeia, o evento foi meu primeiro trabalho elaborado diretamente para crianças. Assim, achei digno escrever algumas linhas a respeito das escolhas que deram corpo à experiência. =)

Secou a Terra do Toró! apresenta a história de um lugarejo fantástico que teve toda sua água roubada para ser transformada em ouro pelo malvado Bruxo-alquimista Alduíno. Isso levou à devastação da Terra do Toró e subsequente partida de seus habitantes, o que botou o Corneteiro na busca por crianças valentes e de coração puro capazes de trazer de volta os demais. Somente com todos os personagens reunidos os poderes do alquimista poderiam ser combatidos, fazendo a água cair de novo na Terra do Toró.

O malvado Bruxo Alduíno, alquimista que secou a Terra do Toró para fazer ouro. Imagem por Thomaz Barbeiro.

O malvado Bruxo Alduíno, alquimista que secou a Terra do Toró para fazer ouro. Imagem por Paulo Renault.

Nossa primeira preocupação durante o parto da atividade foi criar um jogo que não lançasse mão da violência como meio de resolver conflitos. De partida, definimos que os desafios enfrentados pelas crianças não envolveriam combates e que qualquer tipo de réplica de armas ficaria de fora. O Bruxo Alduíno não seria derrotado numa luta e, tampouco, as crianças encontrariam uma espada mágica ou qualquer outro cacareco bélico, por exemplo.

Com isso na cabeça, decidimos trazer brincadeiras infantis tradicionais a Secou a Terra do Toró! Dessa forma, para levar o Pai Coruja, a Senhorita Teco Teco, o Belo Adormecido e o Mascate de volta, as crianças entraram numa caça às corujas (uma caça ao tesouro com, bem, corujas), estiveram numa das pontas de um cabo de guerra e botaram o corpo para fazer ginástica no cheio ou murcho (variação da Terra do Toró da brincadeira do vivo ou morto). Na escolha das brincadeiras, levamos em conta também o estímulo à atividade física e o imperativo de criar atividades coletivas, evitando repartir os participantes em protagonistas e espectadores das experiências.

As crianças desafiam o Bruxo Alduíno e o Mascate no Cheio ou Murcho. Imagem por Paulo Renault.

As crianças desafiam o Bruxo Alduíno e o Mascate no Cheio ou Murcho. Imagem por Thomaz Barbeiro.

O Mascate e o Bruxo Alduíno tentam resistir às crianças no Cabo de Guerra. Imagem por Paulo Renault.

O Mascate e o Bruxo Alduíno tentam resistir às crianças no Cabo de Guerra. Imagem por Thomaz Barbeiro.

A saída para derrotar o alquimista – uma cantoria coletiva de versos mágicos ensinados pelo Belo Adormecido – também nasceu dessa perspectiva não-violenta, mas veio acompanhada de mais pretensões. À medida que as crianças e os personagens cantavam os versos “Vou tomar com a minha mão/Não vou deixar ninguém roubar/Chuva, raio e trovão/Hoje água vai rolar” Alduíno dizia adeus a seus poderes e a água retornava à Terra do Toró, traduzida em bolhas de sabão. Canto coletivo como metáfora da união popular derrotando a opressão de classe ou indivíduo. Jogo levado a sério.

O Belo Adormecido ensina os versos mágicos para as crianças. Imagem por Thomaz Barbeiro.

O Belo Adormecido ensina os versos mágicos para as crianças. Imagem por Paulo Renault.

O artesanato dos personagens em Secou a Terra do Toró! também carregou reflexões quanto aos valores e imagens comunicados aos participantes. Tentamos deixar de lado estereótipos e mesclar elementos tradicionais dos contos de fadas europeus com referências ao cordel, num trabalho próximo ao que a Confraria já havia realizado em O Reino do Grimm Agreste.

Assim, construímos um bruxo ganancioso e egoísta, que acompanhava os participantes lançando bravatas e gargalhadas; um artista de visual multi-cultural, com sotaque levemente nordestino e papel de guia/narrador para as crianças; uma aviadora, moderna, audaz e independente; um pai literalmente coruja, preocupado com o desaparecimento de seus filhotes; um vendedor meio hobbit, meio matuto, um pouco rabugento e com gosto por jogos; uma Dama da Água inspirada nas fadas da tradição clássica e um Belo Adormecido, indefeso após comer uma fruta envenenada pelo bruxo.

O Corneteiro. Imagem por Thomaz Barbeiro.

O Corneteiro. Imagem por Paulo Renault.

O Mascate. Imagem por Thomaz Barbeiro.

O Mascate. Imagem por Paulo Renault.

Senhorita Teco Teco. Imagem por Thomaz Barbeiro.

Senhorita Teco Teco. Imagem por Paulo Renault.

Belo Adormecido. Imagem por Thomaz Barbeiro.

Belo Adormecido. Imagem por Paulo Renault.

A Dama da Água. Imagem por Thomaz Barbeiro.

A Dama da Água. Imagem por Paulo Renault.

Pai Coruja e seus filhotes. Imagem por Thomaz Barbeiro.

Pai Coruja e seus filhotes. Imagem por Paulo Renault.

Por fim, uma característica distintiva de Secou a Terra do Toró! em relação às atividades tradicionais da Confraria das Ideias é que aqui as crianças não representaram personagens. Ao invés disso, permaneceram sendo elas mesmas, interagindo com personagens vividos por jogadores convidados. Nesse sentido, Secou a Terra do Toró! marca uma aproximação da Confraria com o teatro interativo, ao mesmo tempo em que reafirma a trajetória do grupo na linguagem do larp. Os jogadores convidados não ensaiaram suas representações e também não receberam falas escritas previamente: toda interação com as crianças e entre eles próprios aconteceu de improviso, no terreno próprio do larp.

Essa estrutura híbrida nos permitiu brincar com um número grande de crianças, inclusive um público espontâneo de observadores e participantes nas brincadeiras, que se juntou ao grupo enquanto vagueávamos pelos espaços do Sesc Pompeia. Do lado dos jogadores convidados, foi a oportunidade de experimentar um larp imersivo, que deixou de lado o caráter agonístico e o cumprimento de objetivos para se voltar à vivência integral dos personagens.Bruxo 1Bruxo 2

Bruxo 3

Bruxo Alduíno e Pai Coruja. Imagens por Thomaz Barbeiro.

Sem dúvida, Secou a Terra do Toró! representa mais um pulo no estudo da linguagem e das baldeações possíveis que o larp pode estabelecer com outros campos da arte. E também a constatação de que no campo do lúdico, todo mundo pode brincar junto. =)

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2 thoughts on “Secou a Terra do Toró! – brincando com larp para crianças

  1. Pingback: Um alô para o Goshai | Luiz Prado

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