Nunca sei seu olhar – Segredos do preparo de Café Amargo #2

A inspiração temática de Café Amargo (que acontece na próxima sexta-feira em São Paulo) veio de um conto que escrevi no início de 2011 e que, por sua vez, foi baseado numa história real. Nunca sei seu olhar faz parte de uma série produzida entre 2009 e 2011, publicada parcialmente na internet e em jornais universitários. Apesar de não ser a única referência para o larp, com certeza é sua principal base.

Nunca sei seu olhar

Pedi um café expresso, ela me acompanhou e comecei a falar tudo de mim, pra não ter que ouvir nada dela. Oito meses desde o último olhar: seus cabelos compridos, o sapato novo, a mesma bolsa grande demais. De mim, dei conta de menos cabelos, mais olheiras e algumas feridas cicatrizadas. Talvez.

O rancor era meu, projetado como raiva pra obliterar a dor. Mas o telefonema não foi, confirmando, depois de tanto tempo, que eu ainda precisava dela pra enxergar minha babaquice. Fui pensativo, olhando pros lados, implorando com meus gestos pra não saber do novo namorado, da viagem pra Europa ou de qualquer outra memória na qual eu gostaria de estar. Ela foi desarmada, e sua falta de vontade de me machucar destruiu qualquer resistência.

Não tocamos no assunto, embora eu tivesse estudado as palavras por todo o caminho. Não significava mais saber os motivos daquele convite, não me traria nada além da tristeza do passado. Diante um do outro, os vapores do café subindo entre nós, era como se apenas o presente merecesse existência e toda referência viesse apenas destruir aquele tênue equilíbrio entre palavras e olhares.

O dela não me dizia nada. Ou melhor, mostrava uma ternura que eu não entendia, ou não queria aceitar. Talvez um convite à amizade ou uma saudade tímida pra sair em palavras. Uma bondade sem dar muita relevância a quem se dirige. Talvez a certeza de estar elaborando um ponto final agradável pra nossas memórias. Eu achava tantos reflexos das minhas inseguranças em seu olhar que acabava, como havia sido desde o começo, sem saber nada do que eles queriam me falar.

Ficamos juntos por duas horas, até que não suportei um silêncio mais prolongado – não queria perguntar nada e ela já não tinha coisa alguma que desconhecesse dos meus últimos oito meses. Levantei e conheci mais uma vez a gentileza de lhe pagar a conta, ao mesmo tempo em que tive certeza de termos enterrado toda possibilidade da sombra do passado nos alcançar. Pra ela, estava agradável assim.

Sob um céu sem estrelas, ela sorriu sem o coração, e disse pra ligar quando quisesse fazer alguma coisa. E então se foi no terceiro ônibus, depois que lhe convenci não fazer sentido esperar que eu embarcasse primeiro. Fiquei por ali, sentindo o abraço do sódio que ilumina a cidade e cantarolando aquela canção de amor.

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