Arte para falar de arte #1 – Os motivos de Uma tarde no museu

2014-07-12 15.59.50

Quando comecei a elaborar o larp Uma tarde no museu, meu primeiro interesse estava em discutir a maneira como interagimos com a arte. Queria problematizar a postura passiva que frequentemente adotamos diante das obras artísticas e colocar em evidência o julgamento apressado que costuma acompanhá-la. Para isso, defini que o centro da experiência do larp estaria no exercício do olhar atencioso. O incentivo à busca de sentido na proposta do outro, que representaria uma obra de arte, permitiria aos demais participantes se tornarem co-criadores da experiência artística e, ao mesmo tempo, destacaria a pluralidade de significados presentes numa obra de arte.

O segundo motivo para Uma tarde no museu, surgido a partir da definição de que um dos participantes representaria uma obra de arte, foi a reflexão sobre o cuidado com que falamos do outro. Durante o larp, esse participante seria analisado, debatido e criticado pelos demais, em virtude não apenas de sua performance, mas também de sua aparência. Cabelos desarrumados, um rosto cheio de espinhas ou um olhar sensual poderiam ser discutidos na busca por sentidos artísticos e me interessava observar a delicadeza ou a grosseria destes comentários. A ficção do personagem obra de arte ofereceria aos demais participantes liberdade para elogiar ou criticar o outro, e debater o uso dessa liberdade logo cedo se tornou um dos temas centrais do larp.

Meu terceiro interesse era oferecer aos participantes personagens com diferentes chaves de representação e observar como o diálogo se instituiria a partir daí. Dois participantes teriam o método convencional da palavra falada, mas o outro contaria apenas com sua postura corporal, movimentos mínimos ou um grupo limitado de palavras, de acordo com o suporte artístico que escolhesse. Este participante conseguiria comunicar sua mensagem de maneira exata? Quais significados os outros atribuiriam para sua postura, seu olhar ou seus gestos? Como o participante obra de arte se sentiria, não podendo responder aos elogios ou críticas que lhe fossem feitos?

Ainda neste ponto, mesmo que os outros participantes utilizassem a palavra falada, uma diferença fundamental entre seus papéis poderia estabelecer um cisão que eu também pretendi explorar. Um personagem seria o monitor, tradicionalmente posto como o detentor do conhecimento e da verdade sobre a experiência artística. O outro seria o visitante, entendido como o aprendiz, o não-iniciado, aquele que procura acessar o conhecimento. Meu interesse neste ponto era observar se essa hierarquia, essa relação de poder, seria mantida ou subvertida pelos participantes. E, consequentemente, a partir disto colocar mais uma vez o questionamento original de Uma tarde no museu, aquele exposto no primeiro parágrafo deste artigo: para você, a apreciação artística implica na posse de um conjunto de conhecimentos estabelecidos, transmitidos como verdade por figuras de autoridade ou, ao contrário, baseia-se num processo de apreensão e ressignificação feito pelo público, a partir dos estímulos propostos pelo artista?

Finalmente, completando o conjunto de inquietações que originaram Uma tarde no museu, estava a busca, contínua em minha pesquisa, de abordar o larp enquanto forma de arte. Nessa perspectiva, utilizar a mídia para discutir nossa relação com a arte me pareceu um caminho adequado para valorizá-la como tal.

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