Jazz Larp

Miles Davis, NYC, 1948. Foto por Herman Leonard

Miles Davis, NYC, 1948. Foto por Herman Leonard

Já falei aqui que escrevi o guia p/ Ouça no Volume Máximo ouvindo jazz, muito jazz. Além de me fazer sentir descolado, isso me levou a pensar algumas relações entre música e larp. Não vou mentir: mais do que ajudar na elaboração de teorias ou parâmetros de trabalho, essas reflexões serviram mesmo p/ satisfazer minha visão do larp como uma forma de arte (e me imaginar bróder do Charlie Parker por alguns minutos). De toda forma, depois de uma série de textos sérios e objetivos, um pouco de digressão não ofende ninguém =)

Pense numa sessão típica de jazz. Os músicos se encontram e, a partir de uma canção pré-determinada, iniciam seus improvisos, alternando-se nos solos e acompanhamentos. É isso que acontece também no larp, se pensarmos nas fichas de personagem ou no conjunto de explicações e acordos como uma espécie de partitura. Eles oferecem as bases para a criação improvisada das narrativas e do drama.

No jazz, uma apresentação ou gravação nunca é igual à outra, justamente pelas variações impostas pela improvisão. O paralelo com o larp também é evidente aqui. Você pode entregar os mesmos personagens para os mesmos participantes e, ainda assim, vai ter um outro jogo acontecendo.

E tem mais: não importa quão maravilhosa seja a partitura de um standard de jazz, o que vale é a sua execução pelo grupo. A arte da música não está numa folha de papel repleta de símbolos herméticos, mas na transformação daquilo em som. No larp, é a mesma coisa. Por melhor que seja um guia de aplicação, proposta ou ficha de personagem, a arte específica da linguagem está no encontro, na transformação dessa partitura em representação. Você pode adorar a leitura de uma descrição de cenário, da mesma forma que alguém se emociona com um conjunto de notações musicais, mas o barato mesmo acontece em outro lugar.

Ah, Prado, muito bonito, mas existe uma grande diferença entre as duas coisas: no jazz, os músicos se apresentam p/ uma plateia ou gravam seus álbuns tendo em vista um ouvinte. No larp, ao contrário, os jogadores representam para si mesmos e uns para os outros. São ao mesmo tempo criadores e espectadores.

Certíssimo, caubói. Mas será que, quando um grupo está reunido no palco ou no estúdio, os músicos não estão jogando uns com os outros também, curtindo os próprios improvisos de harmonias e sucessões de acordes, se deliciando com os sentimentos transbordando em cada nota? E aí, eles não seriam, nesse momento, espectadores da própria arte?

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