Ouça no Volume Máximo / Bastidores #4 – Improvisando sobre a partitura

foto por Luiz Falcão

Ouça no Volume Máximo. A Gruta, São Paulo, 2013. Foto por Luiz Falcão

Ouça no Volume Máximo é baseado na construção coletiva de personagens e de suas relações através do improviso – toda a história da banda e de seus integrantes é criada durante o próprio jogo. Entretanto, o guia de aplicação indica que três características sejam definidas antes do larp – o estilo musical do grupo, o instrumento de cada integrante e a disposição pessoal para retomar a banda. Neste artigo, vou falar um pouco sobre esses elementos e as motivações para incluí-los como pré-definições do larp.

Estilo da banda

Iniciar o jogo conhecendo o estilo da Ouça no Volume Máximo traz aos participantes opções tanto para estereótipos quanto para suas desconstruções. Partir de um trio punk ou de uma banda de rock progressivo, por exemplo, oferece sugestões diferentes de motivação, postura, trajetória e relacionamentos para todo o grupo – considerando que os jogadores partilhem conhecimentos sobre o estilo determinado. Num larp repleto de improviso, essa informação pode ser decisiva para definir a atmosfera da experiência que se deseja vivenciar. É provável, por exemplo, que ao escolher uma banda punk os participantes pretendam falar sobre contestação ao sistema e abandono de antigos ideais, para continuar no exemplo acima.

Vale a pena registrar que, originalmente, essa característica não era pré-definida, mas deixada para o improviso do jogo. Isso fez com que, na segunda aplicação, em virtude da cautela dos participantes em tomar a iniciativa para determinar algo tão central, o estilo da banda nunca tenha ficado claro. O andamento do larp não foi comprometido – na verdade, a experiência foi bastante intensa e intimista – mas isso influenciou decididamente para que os refrões e memórias não fossem acionados em momento algum, pois os participantes não tinham bases para criar seus versos. Dessa forma, um elemento fundamental do jogo ficou de fora.

Situação oposta aconteceu na aplicação seguinte, na qual o estilo da banda foi pré-definido como reggae e os refrões surgiram facilmente. Além disso, biografias, personalidades e vários dos assuntos abordados no jogo tiveram como ponto de partida justamente o estilo: o baterista que foi morar na praia em busca da natureza, o guitarrista que abandonou o reggae para ganhar dinheiro, as referências à Jah e à Babilônia. O sucesso dessa aplicação foi determinante para a inclusão do estilo da banda dentro das pré-definições do larp.

E mais: originalmente, Ouça no Volume Máximo era um jogo apenas sobre grupos de rock´n´roll. Foi a partir da experiência com a banda de reggae que decidi tornar o cenário do larp mais abrangente e expandir as possibilidades dos participantes.

Instrumentos

Saber qual era o instrumento de cada um na banda também é parte das pré-definições do jogo. Da mesma forma que o estilo, essa informação traz sugestões para as biografias – vocalistas tradicionalmente assumem a postura de líderes, tecladistas e bateristas têm pouco destaque, percussionistas são encarados como músicos de apoio.

Diferentemente da definição anterior, entretanto, essa informação não é decidida em grupo, mas sorteada. Isso foi pensado para trazer aleatoriedade e expectativa ao larp. Sempre é muito interessante observar as expressões dos participantes quando abrem seus papéis e descobrem seu instrumento. Diversão, alegria e frustração se alternam e alguns comportamentos se repetem – ser o percussionista sempre gera risos e tirar a carta do vocalista costuma ser uma surpresa positiva.

A seleção dos instrumentos é fruto da concepção inicial da banda como um grupo de rock. Decidi não alterá-la por considerar o conjunto genérico o bastante, capaz de suportar diversos estilos. Os participantes, entretanto, podem substituir ou incluir novos instrumentos conforme as conveniências da experiência que desejam vivenciar. Se quiserem jogar com um grupo de forró, por exemplo, ter como opções zabumba, sanfona e triângulo faz muito mais sentido do que guitarras solo e base.

Disposições iniciais

A terceira característica definida antes do jogo corresponde à vontade de cada participante de retomar a banda. São três opções, também sorteadas: verde indica disposição positiva, vermelha negativa e amarela dúvida. Existe uma carta verde, uma vermelha e cartas amarelas equivalentes ao número restante de participantes, garantindo que sempre haverá uma pessoa a favor e uma contra o retorno.

A ideia por traz dessa escolha é gerar conflito entre os personagens e movimentar o larp, evitando que todos entrem em acordo de imediato e fiquem sem ter o que discutir pelo resto do encontro. A predominância de cartas amarelas acentua a incerteza já criada pelo sorteio e, ao mesmo tempo, garante liberdade à maioria dos participantes na hora de tomar um lado no decorrer do jogo.

Últimas palavras

Sendo Ouça no Volume Máximo fundamentado na apropriação pelos jogadores dos processos que geram a experiência, incentivo cada grupo a acrescentar ou retirar pré-definições conforme achar melhor. O guia de aplicação é um instigador para a criação artística e suas orientações podem ser alteradas ou subvertidas sempre que as especificidades dos participantes exigirem. Pensem nele mais ou menos como numa partitura para o jazz: sua função é oferecer pontos de partida e sugestões para o improviso, que é onde a arte acontece de verdade.

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