Ouça no Volume Máximo / Bastidores #3 – O zumbi necessário

Ouça no Volume Máximo. Laboratório de Jogos, Belo Horizonte, 2013.

Ouça no Volume Máximo. Laboratório de Jogos, Belo Horizonte, 2013.

 

Olá! De novo comentando os bastidores da produção de Ouça no Volume Máximo.

Se você topou com alguma das peças de divulgação ou leu o guia de aplicação do jogo, deve se lembrar do subtítulo “um jogo de representação sobre nostalgia, mágoas e recomeços”. Bem, eis a verdade: é disso que fala Ouça no Volume Máximo. Sua proposta é a vivência de um reencontro repleto de memórias e assuntos mal-resolvidos, que desperte emoções e faça os participantes refletirem sobre suas próprias reminiscências.

Certo. Mas esse não era um jogo sobre uma banda?

Também. Esse é o nosso zumbi necessário.

Em Talk Larp, um dos livros do Knudepunkt 2011, Juhana Pettersson apresenta um artigo intitulado O zumbi necessário. Nele, afirma que os jogadores podem aceitar mecânicas, temáticas ou formatos dos mais ousados para um larp, desde que exista um elemento familiar, capaz de seduzi-los para o jogo e, ao mesmo tempo, indicar como proceder dentro dele.

De acordo com Pettersson, diferentemente das formas tradicionais de arte – nas quais é aceitável criar obras obscuras que desafiem a compreensão do público ou que sejam totalmente inexplicáveis – o larp precisa facilitar a vida do jogador em algum nível. Sendo uma arte participativa, depende do engajamento das pessoas, que passa pelo entendimento de como se comportar no jogo e do que é possível ser feito nele. Se isso não acontece, você pode ver seu larp parar porque as pessoas não sabem como participar dele. Ou o público pode simplesmente não se interessar por seu jogo, porque não compreende suas propostas.

É a percepção da necessidade desses elementos familiares que cunhou a expressão zumbi necessário. Todos, até mesmo sua avó, sabem como um zumbi age e têm ideia do tipo de experiência sugerido quando existe um morto-vivo no jogo. Além disso, zumbis estão na moda, o que chama público para seu larp. Apesar de remeter a um gênero narrativo, o zumbi necessário pode ser  qualquer elemento que estabeleça relação com a experiência prévia do jogador: uma mecânica para violência envolvendo quebrar copos, um poema repleto de imagens familiares, uma estética similar a um filme de sucesso. Ou uma banda de rock.

Ter uma banda – de metal, punk, hardcore, reggae, pagode, samba… não vamos ser restritivos aqui – já foi, ou ainda é, o sonho de um punhado de gente. Você mesmo pode se lembrar dos ensaios com o pessoal da escola, das caixas de ovo coladas no quarto dos fundos da sua casa ou do desastre naquele festival de bandas. Caso não se lembre, você provavelmente teve um amigo que te levou para um show sofrível da sua super banda. Em último caso, você deve ao menos conhecer uma dúzia de histórias sobre bandas que terminaram de maneira trágica, que se reuniram de novo apenas para ganhar uma grana ou que estão por aí definhando em turnês pela América Latina.

Estou dizendo que, para convencer as pessoas a participar de um larp sobre nostalgia, mágoas e recomeços, preferi antes chamá-las para fazer de conta que são astros da música. Além de ser sedutora, essa abordagem dá também aos participantes um referencial para a representação. A partir daí, entrar no jogo das recordações e emoções fica muito mais fácil.

É bom destacar que isso não significa enganar os jogadores ou trazer a banda apenas como um acessório ao larp. Pelo contrário: Ouça no Volume Máximo é também sobre uma banda discutindo seu passado e sua relação. Minha opção por esse tema e não, por exemplo, pela reunião do pessoal do escritório ou da turma de formandos 2005 também se pautou por suas possibilidades dramáticas. O zumbi necessário não é um mero chamariz – é parte fundamental do desenho do larp.

Caso você queira saber mais sobre o zumbi necessário, recomendo o artigo de Eirik Fatland disponível no site do NpLarp, no qual ele também comenta o texto de Pettersson. Se preferir, acesse a versão original em inglês aqui.

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