Por que Ouça no Volume Máximo?

Publicar um guia para Ouça no Volume Máximo(1) em formato livreto foi uma decisão motivada por dois fatores: a maneira como a cena paulistana entende o larp e o projeto de valorizar a prática enquanto expressão artística.

Na cidade de São Paulo(2), o larp é encarado predominantemente como um evento que só pode ocorrer através da organização por parte de um grupo que detém conhecimentos e ferramentas específicos para a prática. Convencionou-se também que o larp exige tempo de preparação – tanto da produção quanto dos jogadores – e deve ser marcado com antecedência, adquirindo aspectos próximos da festa ou das apresentações teatrais e musicais. As pessoas se programam e esperam ansiosas o “dia do larp”. Não se joga descompromissadamente, reunindo amigos num sábado chuvoso.

A experiência da Confraria das Ideias talvez seja a mais conhecida desse modo de se relacionar com a prática, mas a mesma dinâmica acontece nas atividades do Boi Voador e da Megacorp, nos grupos de Vampiro e mesmo no labLARP. Temos, de um lado, uma equipe organizadora, imprescindível para que o larp aconteça e, do outro, jogadores numa posição semelhante à do público do cinema, do teatro, de um concerto. Na maior parte dos casos, entende-se que a natureza dos larps realizados, geralmente reunindo mais de uma dúzia de pessoas e contando com elementos de cenografia e figurino, explicam essa relação. Contudo, mesmo jogos que prescindem de preparação – como os poemas de representação – acontecem nesses formatos. Basta ver as experiências do Boi Voador ou do labLARP.

Juntando essas observações com as descobertas sobre o cenário nórdico e sua variedade de temas e formatos, comecei a pensar num larp que pudesse acontecer sem a presença de um organizador, no qual qualquer um poderia juntar os amigos e jogar, como acontece com jogos de tabuleiro, cartas ou rpg. Assim surgiram a estrutura de Ouça no Volume Máximo, com seus personagens construídos pelos próprios participantes durante o jogo, e as primeiras ideias para um guia de aplicação.

O segundo fator que levou à publicação do guia de Ouça no Volume Máximo – a busca pela valorização da prática enquanto expressão artística – remonta ao encontro com Wagner Luiz Schimt, por ocasião do debate promovido pelo NpLarp em fevereiro de 2011. Apesar de não ter ainda um roteiro escrito, nessa época Ouça no Volume Máximo estava bastante adiantado e próximo da versão final, com um jogo-teste realizado dias antes. Durante o evento, Wagner apresentou ao público vários guias de aplicação de larps nórdicos e dois deles me deixaram impressionados pelas temáticas maduras, qualidade gráfica e elegância textual: The Mothers e Lady and Otto, ambos de Frederik Berg Olsen.

Ao mesmo tempo que esses livretos tornam o larp acessível a qualquer um e potencializam sua divulgação, trazem também materialidade ao jogo e servem como seu registro. A estrutura e a motivação não estão mais guardadas apenas nas mentes dos participantes, mas podem ser acessadas, estudadas, experimentadas e modificadas. Ainda, o acabamento caprichado põe em relevo as pretensões artísticas, destaca a existência e o papel do autor no larp. Em resumo, nestes guias de aplicação vi um poder de sedução voltado não apenas para jogadores, mas também para incentivar novos produtores e fazê-los encarar seus trabalhos como parte de uma experiência artística. Considerando a arte específica do larp como o momento do jogo, o encontro entre pessoas representando personagens num ambiente ficcional, seu roteiro encontra paralelos no script cinematográfico ou no texto teatral.

Assim, a opção pela publicação em modelo editorial de Ouça no Volume Máximo procura levar o larp – tanto este jogo específico como a linguagem – a públicos mais amplos e difundir a prática, ao mesmo tempo em que busca incentivar iniciativas similares de novos produtores. Afirmo, mais uma vez, que a arte do larp não está nas páginas diagramadas de Ouça no Volume Máximo – um texto corrido em papel A4 tem a mesma oportunidade de gerar experiências fantásticas – mas espero que este guia desperte em alguém a mesma inquietação criativa e vontade de publicar seus jogos que The Mothers e Lady and Otto geraram em mim.

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(1) Apesar de ter sido publicado em dezembro de 2013, Ouça no Volume Máximo foi concebido entre fevereiro e março desse mesmo ano. Muita coisa aconteceu na cena brasileira nesse período e eu mesmo desenvolvi e apliquei outros larps, de modo que algumas inquietações e reflexões sofreram profundas alterações de lá para cá. Esse artigo procura descrever as motivações à época da elaboração do jogo, destacando os aspectos ainda relevantes hoje.

(2) Destaco a cena paulistana por ser o espaço no qual primariamente atuo e do qual posso falar com mais propriedade, sem o risco de fazer generalizações injustas. Sei que em Belo Horizonte e Sorocaba, por exemplo, onde realizei trabalhos pelo Boi Voador e NpLarp, certos grupos experimentam o larp numa relação muito próxima do rpg de mesa. Os motivos para entender essa “maneira paulistana” de tratar o larp são extensos e matéria para outro artigo.

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One thought on “Por que Ouça no Volume Máximo?

  1. Pingback: Ouça no Volume Máximo é lançado pela UNZA RPG! | Luiz Prado

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