Jogando um Live Action Role Playing #1: Ouça no Volume Máximo – 20/12/2013

Dia 20 de dezembro foi lançado o guia de Ouça no Volume Máximo (você pode baixá-lo gratuitamente em http://boivoador-larp.blogspot.com/) e, para marcar a ocasião, realizamos uma aplicação do larp em São Paulo. A Jakeline Santana foi uma das participantes e escreveu sobre a experiência:

Jogando um Live Action Role Playing #1: Ouça no Volume Máximo – 20/12/2013

Definições pessoais
Uma das formas de explicar um Live Action que eu mais gosto é aquela que o pessoal da Confraria das Ideias apresenta àqueles que jogam pela primeira vez: é como um teatro de improviso com um enredo ou tema (que varia do realista ao medieval fantástico) e cada personagem recebe seu “papel”, uma ficha com características, história e habilidades que possibilita o jogador a se relacionar com os outros personagens e criar a história.

Para quem já está familiarizado com RPG de mesa, a situação é bem semelhante, porém trocamos os dados, fichas, livros pela ação propriamente dita. Os jogadores e o narrador continuam alí, mas ao invés de descrever, os personagens realizam as ações de verdade.

Até onde pude observar, as regras do Larp (abreviação de Live Action Role Playing) embora menos complexas, mais claras e focadas em como fazer o jogo se desenrolar através das ações dos personagens do que nas permissões e restrições de ações, deixam bem claro que independente do grau interferência do narrador, é o jogador o responsável pelos resultados, bons ou ruins (se é que pode-se dizer desta forma). É como vir a Terra novamente, com uma outra trajetória de vida, com habilidades e defeitos em escala reduzida =).

As regras e materiais que podem ser usados nos Larps para desenvolvimento da história são os mais variados, assim como os temas e as regras que são muito específicas, variam muito de acordo com o criador do jogo, com o tema, com o local em que o jogo acontece… sobre isso, considero que neste momento ainda não consigo falar muito, já que é um assunto amplo. Por isso, descrevo minhas impressões sobre o primeiro jogo fora das Jornadas Fantásticas.

Preparação para o Larp – Ouça no Volume Máximo.

O Local escolhido foi um bar próximo à biblioteca Mario de Andrade, um destes locais improváveis escondidos no centro da cidade. Mais parecia um dos vários pontos de parada dos irmãos Winchester e era um lugar estranhamente protegido e acolhedor (alguns se perderam na tentativa de achar o local, creio eu).

A acústica era ruim e o som alto, favorecia conversas em tom de voz mais alto. Aos poucos fui lembrando da ideia do Site Especific… acho que pela primeira vez joguei em um lugar que tinha que ter a “cara do jogo”. De um modo geral, o único ponto negativo que considerei sobre o local foi o horário e o bairro que infelizmente do ponto de vista de uma mulher que geralmente anda desacompanhada não era exatamente um lugar seguro, mesmo que naquela noite em específico, estivesse tudo em ordem no centro da cidade.

Quando todos chegaram, as informações para a preparação do jogo foram apresentadas e as mesmas se encontram no guia presente no http://boivoador-larp.blogspot.com.br/2013/12/volume-maximo.html, que todos receberam no final. O que posso dizer que é interessante no ONVM é o fato de ser um jogo para poucas pessoas (de 3 à 7) o que facilita a interação entre os personagens e o controle das próprias ações. O enredo com um tema mais realista talvez tenha a tendência a atrair participantes com maturidade e interesse na experiência de vida em si que possa ser desenvolvida no jogo. Levando em consideração o fato das possibilidades de ações serem amplas (incluindo se embebedar durante o jogo, já que poderiamos consumir o que quiséssemos) creio que maturidade é uma característica importante que todo o jogador deve ter.

“Ouça no Volume Máximo foi uma das maiores bandas da história da música. Vocês venderam milhões de álbuns, lotaram estádios ao redor do mundo, tiveram sua imagem estampada à exaustão em capas de revistas e se tornaram milionários. Mas tudo isso ficou para trás. Há 15 anos, alguma coisa aconteceu, a banda se separou e a vida de vocês nunca mais foi a mesma.”

Eu escolhi através de sorteio a posição de percussionista na banda, (uma das 7 cartas de integrantes que contavam com vocalista, bateirista, etc…), uma posição não muito relevante, creio eu, mas que favoreceu a característica mais distante da minha personagem: Alguém que só estava alí para rever os antigos integrantes e saber como estavam e o que queriam de mim e a deixar claro que não estava disposta a recomeçar com a finalidade de trazer a banda de volta aos palcos, assunto que faria todos os integrantes (ou não) se reunirem naquele lugar. Tomei esta rumo para a personagem de acordo com uma das 7 cartas de disposição inicial na cor vermelha.

O estilo musical escolhido para a banda foi o Rock, mas neste momento também não pareceu relevante… acho que não tivemos tempo de fazer isso se tornar relevante, fora lembrar exemplos de outras bandas de rock ao longo do Larp. Após dez minutos refletindo sobre os objetivos do personagem, preparação que também considero importante para que possamos “encarnar” no personagem, inicia-se o jogo…

20/12/2013: 20h20 – Os integrantes se reúnem.

Eu não teria características, nem passado, nem mesmo um nome (que só ganhei depois de uns 30 minutos de Larp ^^’) Minha história seria criada alí no jogo de acordo com o desenrolar da conversa e fatos que poderiam ser criados na hora ou com a ajuda das 11 cartas de memória que trariam assuntos que poderiam ser levantados na mesa do bar como o escândalo sexual, a música roubada, a falência e dificuldades financeiras de determinado integrante, etc… Minhas ações ou opiniões seriam desenvolvidas alí mesmo e essa construção coletiva me tornou uma personagem afiada, distante dos problemas dos outros, com a cabeça na realidade e sem a necessidade de interferir na decisão dos outros sobre reviver ou não a banda.

O enredo contava com um personagem que convocou a reunião entre os ex integrantes da banda Volume Máximo, no lugar onde a banda inicialmente começou, para tentar um novo começo. Senti que eu não era bem vinda por esta pessoa em específico e suas crises emocionais a princípio mais traziam meu personagem para as vivências do dia a dia do que me possibilitava imergir na proposta. A primeira reação que costumo ter para este tipo de ação é dar um choque de realidade… acho que não consigo ainda evitar…

Por um momento as pessoas da mesa do lado nos observavam chegando e discutindo, mas acho que perceberam que era algum jogo de interpretação e não deram mais atenção. Uma das propostas era agir como o personagem também ao transitar pelo espaço, mas o máximo que consegui fazer foi pedir para separar minha comanda, já que não consumo álcool. Creio que teria sido mais legal se ninguém notasse nossa interpretação além do dono do espaço.

Como a conversa entre os personagens fluía bem em vários momentos, usei uma ou duas cartas de memórias. Esta ferramenta parecia difícil de usar pois as vezes o assunto sorteado poderia criar uma quebra em uma conversa ou repetir algo que já havia sido dito, como apontaram os jogadores, durante o fechamento. Uma dica para quem jogar ONVM futuramente é utilizar a carta somente em um momento de “falta de assunto” ou necessidade de concluir um raciocínio que se repete na conversa e não tem conclusão, caso não queira passar por isso.

Acabada a exaltação da conversa inicial, dois integrantes vão para fora e o jogo se divide em 2 núcleos. A conversa fica mais tranquila e focada propriamente nas lembranças, aparentemente (em alguns momentos o som da música do bar dificultava a conversa). A uma hora de jogo se passou antes da banda tomar a decisão e sem a necessidade de entrar em off, pelo que senti vindo de quem estava na mesa comigo e percebeu, sentimos que precisava de mais tempo para concluir. Isso foi bom pois uma hora para este jogo é pouco e conseguimos ter afinidade até para manter o controle do tempo. O jogo terminou em cerca de 1h20 após tomarmos a decisão.

Conclusão 

O Larp trouxe uma das poucas lembranças boas que tive jogando rpg de mesa  com um grupo com maioria de iniciantes que conversava sobre as regras do jogo, as impressões e que deu certo ou não. Não sei como as pessoas jogam RPG hoje em dia, já que isso comigo há muito tempo. Percebi que o cuidado em apresentar as regras, fazer acolhimento dos jogadores (mesmo que sejam desconhecidos) e incentivar a todos a fazer um feedback traz uma experiência positiva que todos que jogam RPG deveriam tentar. Não sei se falta isso aos outros grupos pois minha visão sobre o assunto não é ampla, não jogo RPG há muito tempo e participo dos Larps somente algumas vezes…

A troca de experiências no final foi interessante, necessária e válida para criador/narrador e jogadores pois todos crescem juntos, trocam experiências juntos e permitem ajustes em um sistema que será utilizado por outros jogadores futuramente, fazendo com que a experiência seja cada vez melhor e torne os jogadores conscientes de que são coautores da proposta. Uma lição e tanto ^^.

As vezes se espera diversão e acontece outra coisa. Às vezes no jogo você encontra a solução para aquele problema que está te atormentando na vida real. E às vezes você vai perceber que se há algo errado com seu personagem e se mudar uma direção aqui ou outra alí será sua responsabilidade também, embora você seja livre para isso, fugir à “verdadeira vontade” do personagem ou não é algo possível, assim como na vida. Acho que é isso que consigo perceber sobre este e o Larp de maneira geral.

—-

Relatos desse tipo, pessoais, são muito importantes para estimular tanto criadores como jogadores a refletir sobre larp. Acredito que escrever sobre suas experiências com o jogo é parte fundamental do fortalecimento da cena, já que pode inspirar outras pessoas a também registrar suas impressões e, a partir daí, gerar conhecimento coletivo sobre a prática.

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One thought on “Jogando um Live Action Role Playing #1: Ouça no Volume Máximo – 20/12/2013

  1. Pingback: Uma participação boêmia | Luiz Prado

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